Margarida Henriques: Passei a ser a cuidadora que sou, por ter sido cuidada como fui.

Quando decidi começar a viver para e da Fotografia, decidi também fazer uma formação em iluminação fotográfica de estúdio, para reciclar o que tinha aprendido, por mera curiosidade, com os grandes fotógrafos com quem me cruzei quando era publicitário.
Passados uns meses, dei um workshop no Porto, a seguir ao qual fotografei algumas pessoas. Levei o carro carregado de luzes, stands§, deflectores e toda uma parafernália de equipamento para obter a luz perfeita. Foi nesse momento que conheci e fotografei, pela primeira vez, a Margarida Henriques. E ao fim de uns breves instantes, ao ouvir a Margarida, enquanto a fotografava, dei conta que tinha levado material a mais: a luz perfeita está, afinal, naqueles que são relevantes para a vida de alguém, que nunca se distraem dos outros e que nunca desligam a empatia; são pessoas que olham – como os fotógrafos – mas que imprimem a sua sensibilidade em quem mais precisa.
A Margarida, que é uma mãos-largas de bondade, já me disse demasiadas vezes que eu mudei a vida dela nesse dia e que, por isso, me estava eternamente grata. E esta é, por isso, mais que uma entrevista para mim: para lá de dar a conhecer a Margarida e o seu projecto Casa da Paz, é a minha oportunidade de lhe agradecer a sua generosidade, por se ter entregue a mim e à minha câmara naquele dia e por me ter ajudado a perceber o essencial, mudando a minha vida e a minha forma de fotografar para sempre.
Se coisas houve que, aparentemente, escaparam a esta entrevista, podem ser facilmente encontradas nos olhos da Margarida: porque tudo o que importa neste mundo, está nos olhos da Margarida.
Ricardo Pereira da Silva (RPS) Quem é que tu pensas que és?
Margarida Henriques (MH): Sou um ser, uma pessoa, um ser humano, uma alma que está neste plano, a aprender, a evoluir.
RPS: E os outros, pensam isso de ti?
MH: Eu acho que as pessoas, algumas pessoas, me reconhecem por aquilo que eu desenvolvi até agora. Pela minha ousadia. Eu era a pessoa que não era compreendida em casa, quando era criança. Portanto, senti, desde cedo, que estava fora da caixa. Quase que nem eu própria me compreendia.
RPS: Quando é que começaste a acreditar em ti e nas tuas capacidades?
MH: Na minha adolescência, por volta dos 16 ou 17 anos, confrontando o meu pai; e na capacidade de reagir, tantas vezes, perante injustiças feitas por figuras de autoridade masculinas, que, para mim, eram graves, muito graves, sobre crianças e adolescentes.
RPS: E quando o confrontaste pela primeira vez…
MH: Percebi que era capaz de enfrentar qualquer coisa. E comecei a acreditar em mim.
RPS: E a partir daí, isso não acabou mais e serviu-te para a vida?
MH: Sem dúvida. Ele ameaçava que me mandava para Coimbra, para junto dos meus irmãos, para que entrasse no caminho certo… E eu lembro-me perfeitamente da resposta que lhe dei: ‘Pode mandar-me já amanhã, que eu vou para a Praça da República, com um cartaz sobre os Direitos da Criança!’. Ele ficou a olhar para mim e deve ter pensado que eu era maluquinha. E era o que eu tinha no meu quarto. Eu tinha três imagens: uma era a imagem dos Direitos Fundamentais da Criança; a outra, uma imagem maravilhosa da Florbella Espanca, que era um cartaz com o poema Amar Perdidamente; e tinha um cartaz belíssimo do Albert Schweitzer, que era o meu grande ídolo.
RPS: Estás grata a alguém por ter dito ou feito algo que mudou a tua vida para sempre?
MH: Fundamente, grata à minha mãe, por todo o trabalho que ela desenvolveu comigo. Sempre no sentido do ‘Tu és capaz’, ‘Tu vais conseguir’, ajudando-me a ultrapassar, por exemplo, a questão da gaguez; aprendendo, à medida que eu fui perdendo a audição, a fazer leitura de lábios; sobretudo, a acreditar em mim.
Mas, também e ironicamente, sendo o meu pai a figura que mais rejeitei, também foi exactamente o meu pai, alguns anos antes de morrer, que me proporcionou uma das maiores lições de vida, de que nunca é tarde para reconhecermos os “erros” e corrigirmos os mesmos, com uma postura de profunda humildade. Morreu com 100 anos, perfeitamente lúcido, com um “fim de caminho” brilhante”. E, por isso, sinto-me grata, por ele e a ele, por ter podido testemunhar algo que foi um potenciador de crescimento.
RPS: Lembras-te de algo, um gesto ou uma palavra que a tua mãe te tenha dito, num dado momento?
MH: Lembro-me de uma atitude que ela teve, numa altura em que eu estava muito deprimida, era criança, entre os meus 8 e 10 anos e a minha mãe fez uma coisa extraordinária, para mim: pôs trapinhos nos dedos de uma mão e pintou os dedos como se fossem bonecas e fez um teatro de marionetes para me fazer rir. O grande objetivo da minha mãe era fazer-me rir e fazer com que eu me alimentasse.
RPS: E esse cuidado mudou-te para sempre?
MH: Para sempre. Eu passei a ser a cuidadora que sou por ter sido cuidada como fui.
RPS: Alguém viu ou acreditou nas tuas capacidades antes de ti própria?
MH: Sim, a minha mãe. A minha mãe era professora primária e era aquela pessoa que via e acreditava nas capacidades de cada um. E era nas crianças mais difíceis em quem ela apostava mais e conseguia resultados. Os mais rebeldes ela punha-os na secretária dela, que era uma honra para eles. E eles passavam a ser os mais atentos, os mais educados. Era, realmente, uma transformadora de almas, uma transformadora de vidas. Outra qualidade que eu aprendi com a minha mãe: ela nunca elevava a voz; baixava sempre a voz. E ficava indignada quando alguém elevava a voz, porque dizia que só servia para assustar, porque se as pessoas falassem baixo, automaticamente ativavam a capacidade de escuta. Ela tinha capacidades que, entre aspas, não eram muito comuns para aquela época.
RPS: E viu as tuas capacidades, antes de ti própria?
MH: Sim, sim.
RPS: Há alguém, em especial, que te esforces para nunca desiludir?
MH: Eu própria, não me quero desiludir, porque eu sou a continuidade do sonho da minha mãe, portanto eu não quero desiludir aquilo que a minha mãe apostou em mim. E eu sei que sou capaz de continuar e de fazer a passagem para outras gerações.
RPS: Quando percebeste que já eras adulta e não havia volta atrás?
MH: Quando fiquei grávida da minha filha, da Guida. Não havia volta a dar: aí, responsabilizei-me, porque como não havia volta, era o momento de me tornar adulta; já era mãe.
RPS: Reconheces em ti alguma qualidade que permanece inalterada desde criança?
MH: Sim, a simplicidade e a humildade.
RPS: Se a esperança média de vida fosse 60 anos, tinhas vivido de forma diferente?
MH: Não. Viveria com os mesmos valores, com os mesmos princípios, não alterava nada
RPS: Se só pudesses dar um conselho a uma criança, qual seria?
MH: Viver a vida e ser feliz.
RPS: Como é que se deve viver a vida?
MH: Ver sempre o aspecto positivo de cada situação, de cada desafio; e saber que tem capacidade para ir sempre mais além.
RPS: Tens adiado algo de essencial na tua vida?
MH: Não. Faço tudo o que, para mim, é essencial.
RPS: Fazes o que gostas ou aprendeste a gostar daquilo que fazes?
MH: Faço muito aquilo que eu gosto. Sobretudo, eu só faço aquilo que gosto. Houve um período em que aprendi a gostar do que fazia, quando estava no Controlo de Qualidade Alimentar. Presentemente, faço só aquilo que gosto, até porque aquilo que eu faço também tem a ver com qualidade alimentar, de emoções e de pensamentos. No fundo, está tudo interligado.
RPS: A Casa da Paz é uma casa erigida com paredes ou com ideais?
MH: A Casa da Paz é uma casa erguida com ideais e com princípios, de respeito, de tolerância, de inclusão, de escuta, sobretudo escuta, mas também de aceitação da pessoa, como ela efetivamente vem; e ajudar essa pessoa a fazer a alquimia das emoções negativas. Portanto, transformar o corpo de dor num corpo de amor, em que ela própria se transforma.
RPS: Como resumirias a Casa da Paz, numa frase?
MH: Um espaço sagrado, onde o reencontro se baseia no respeito.
RPS: A Casa da Paz nasceu de uma vontade de realização pessoal ou de identificação de uma necessidade coletiva?
MH: A Casa da Paz nasceu de uma necessidade pessoal: de uma necessidade de partilha daquilo que eu tinha aprendido com a vida; de partilha com os outros, como escola.
RPS: Quais foram os marcos históricos de crescimento e enraizamento da Casa da Paz?
MH: O crescimento da Casa da Paz é um crescimento contínuo. Não há marcos históricos. Todos os dias são marcos. Quanto ao enraizamento, diria que todos os seminários que se realizaram com formadores excelentes, proporcionando esse enraizamento a quem o procurava. Saliento, com profundo respeito, toda a dedicação da Claudel Borossó, da Lisete Soares e, mais recentemente, do Luís Martins Simões, do Alexandre Gama e, neste caso em particular, saliento redobradamente a Maria Dulce Almeida, não só pela grande dedicação à Casa da Paz, mas também porque foi graças a ela que nós nos conhecemos e que esta entrevista foi possível, entre tantas coisas que já fizemos acontecer.
Fotografias e Entrevista: Ricardo Pereira da Silva [RAWPHØTOLOGY]
CASA DA PAZ | Margarida Henriques: WEBSITE