Janeiro 4, 2026
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Matilde Sirgado: Sou técnica no saber, mas voluntária na acção.

/ PROSTØRIES

A Dra. Matilde Sirgado foi a primeira pessoa que conheci no Instituto de Apoio à Criança (IAC), quando um dia bati àquela porta e perguntei como podia ajudar crianças, através deles?

Achei, por isso, mas também por ter sido a pessoa com quem mais contei na operacionalização do projecto ‘YOU HAND ME – Mãos que transformam vidas’, que todos deviam conhecer esta mulher fantástica, que luta diariamente por esta causa, desde 1993 e que, em 2024, foi nomeada vice-presidente desta instituição que é indissociável dos direitos das crianças em Portugal.

Mais do que uma marca temporal, este seu primeiro ano de mandato simboliza a continuidade de um percurso profundamente enraizado na história e na identidade do IAC, construído ao longo de mais de três décadas de dedicação à promoção e defesa dos direitos da criança.

Esta conversa dá voz a um percurso vivido com intensidade, rigor e humanidade. Nela, Matilde Sirgado partilha não apenas a sua visão enquanto dirigente, mas sobretudo a sua identidade enquanto técnica, investigadora e mulher de causas, profundamente comprometida com a infância. E este primeiro ano de Vice-Presidência confirma aquilo que sempre definiu o seu caminho: estar onde as crianças estão, com conhecimento, coragem e coração.

 

Ricardo Pereira da Silva (RPS): O que representa para ti assumir a Vice-Presidência do IAC?

Matilde Sirgado (MS): Assumir a Vice-Presidência do IAC representa, para mim, um profundo compromisso ético e emocional. Há mais de três décadas que caminho ao lado desta instituição que me formou, me inspirou e me desafiou continuamente. E, ao aceitar esta missão, faço-o com sentido de responsabilidade, mas também com a firme convicção de que não é possível proteger e promover os direitos das crianças sem entrega, escuta activa e coerência.

A minha história com o IAC começou em 1993. Desde então, cresci com o Projeto Rua, que tenho coordenado desde 1999, e foi precisamente neste projeto – um dos mais inovadores do IAC – que percebi que a intervenção com crianças em situação de vulnerabilidade exige não só competências técnicas, mas também presença, empatia e coragem. Aprendi com a Dra. Adelina Odete Marques, fundadora do Projeto Rua, que estar na rua com uma criança é estar no seu tempo e no seu espaço, sem julgamento. Ao longo dos anos, fui-me formando academicamente em Política Social, mas foram estas experiências vividas no terreno que moldaram o meu compromisso e a minha identidade profissional.

Enquanto Vice-Presidente, integro agora uma equipa comprometida com os grandes eixos estratégicos da nossa acção: Prevenção, Intervenção, Participação, Conhecimento e Cooperação. Nestes pilares desenvolvemos iniciativas como o Consultório Social – um recurso único que conjuga apoio psicológico, social e jurídico – ou as Escolas de Segunda Oportunidade e as Escolas Alfaiate, que reinventam a escola como um lugar de pertença e inclusão.

Assumo, por isso, este mandato com esperança e com a convicção de que o IAC continuará a ser uma referência ética e técnica na defesa intransigente dos direitos das crianças. O mundo pode não mudar todo de uma vez, mas muda um pouco todos os dias,  quando há uma criança que é escutada, uma família que é apoiada, um jovem que volta a acreditar no futuro.

RPS: Quais os maiores objetivos para este teu novo mandato, como Vice-Presidente?

MS: Pretendo reforçar e sensibilizar para a intervenção junto das crianças invisíveis, as que se encontram em situação de rua e as que estão em contextos de exclusão severa. Quero aumentar a proximidade do IAC aos territórios e às comunidades, inovar nas respostas, fortalecer o trabalho das redes intersectoriais e investir na visibilidade da nossa missão junto da sociedade civil e decisores políticos.  A capacitação contínua das equipas — motivadas, resilientes e formadas — é central.

RPS: O que faz o IAC, em concreto?

MS: O IAC promove e defende os direitos da criança desde 1983. Fundado por Manuela Ramalho Eanes — hoje, Presidente Honorária — e inspirado por João dos Santos, desde o início o IAC assumiu que “uma política da infância deve ser obra de toda a comunidade”. Foi pioneiro em serviços inovadores como a Linha SOS Criança, o Projeto Rua e o Atendimento Jurídico gratuito, Humanização e Atividade Lúdica. Destacam-se projetos como o Consultório Social, as Escolas de Segunda Oportunidade e as Escolas Alfaiate (especialmente em educação e saúde mental infantojuvenil), com metodologias hoje replicadas nacional e internacionalmente. Hoje, trabalhamos por e para as famílias, crianças, jovens, profissionais e decisores, em áreas como prevenção, intervenção, participação, formação e advocacy. Eu coordeno o Projeto Rua “Em Família para Crescer”, com uma abordagem humanista, centrada na criança e na comunidade.

As crianças e os jovens são, obviamente, o centro da nossa missão, sobretudo os mais vulneráveis, mas sabemos que a transformação só é possível se intervirmos junto de todos os que impactam a vida das crianças: famílias, profissionais, instituições e decisores políticos. O IAC tem contribuído para várias mudanças legislativas e políticas públicas em matéria de infância. E acreditamos que esse papel de influência política e social é, hoje, mais necessário do que nunca.

Trabalhamos todos os dias para quebrar ciclos de pobreza, prevenir riscos e construir respostas mais justas e dignas. Não importa a origem, a condição familiar ou o país de nascimento: todas as crianças devem ter as mesmas oportunidades e direitos. Esta é a nossa missão e o nosso compromisso, numa actuação contínua em parceria com o Estado, redes internacionais e outros agentes da sociedade civil.

RPS: Quais são as principais necessidades das crianças e famílias apoiadas pelo IAC, actualmente?

MS: Hoje, as crianças e famílias que apoiamos continuam a enfrentar enormes desafios: precariedade habitacional, insegurança alimentar, exclusão social e digital. Muitas vivem em vulnerabilidades múltiplas, sem acesso adequado à saúde, educação ou apoio emocional. As crianças em situação de rua sofrem ainda com o isolamento, carência de vínculos afectivos e falta de perspetivas futuras. Para além do acesso a direitos básicos, são absolutamente essenciais apoio psicológico, protecção contra riscos e o reconhecimento da sua dignidade, voz e participação na comunidade.

RPS: Como tem evoluído o quadro de necessidades e de intervenção do IAC, ao longo destes mais de 40 anos?

Em 1983, o IAC começou por afirmar a criança como sujeito de direitos. Nas décadas seguintes, evoluímos da protecção reactiva para uma acção preventiva e promotora de direitos. Os desafios contemporâneos — bullying, abuso sexual, violência digital, saúde mental ou migração — exigem respostas cada vez mais integradas, multidisciplinares e informadas por investigação, mas sempre enraizadas na escuta, na presença e na proximidade. A nossa força está em adaptar-nos, mas mantendo o compromisso ético inicial.

RPS: Quem são os maiores parceiros do IAC e que tipo de parcerias são essenciais para ampliar o seu impacto?

MS: O IAC trabalha com organismos públicos, universidades, fundações, municípios, empresas e organizações internacionais. Para ampliarmos o impacto dos nossos projectos, precisamos de parcerias sustentadas — em financiamento, inovação, investigação e cooperação internacional — que garantam estabilidade e reforcem a nossa capacidade técnica e comunitária. Particularmente, é essencial a construção de políticas sociais públicas para crianças, de um modo geral e, em particular, nos PALOP, onde tenho desenvolvido investigação.

RPS: Existem novos projectos ou iniciativas que pretendes desenvolver neste mandato?

MS: Sim. Identifico ser prioritário e urgente um forte investimento em saúde mental infantojuvenil, com unidades de escuta nas escolas e comunidades. Neste sentido, pretendemos reforçar os nossos projectos mais emblemáticos já referidos, visando a sua expansão a nível nacional e internacional.  Também considero necessária a criação de programas de autonomia de vida para a transição dos jovens para a vida adulta. Além disso, há um foco na transferibilidade de metodologias, investigação e formulação de políticas sociais para crianças em estados frágeis, especialmente nos PALOP — fruto do meu doutoramento em Política Social, com especialização na protecção infantil e em situação de rua.

Não menos importante é a aposta em candidaturas a linhas de financiamento e acções de sensibilização para angariação de fundos junto do Estado e da sociedade civil, visando o equilíbrio financeiro e a sustentabilidade da nossa intervenção/ instituição.

RPS: Que aprendizagem trazes do cargo de Coordenação Geral e Gestora Financeira, para esta nova função?

MS: Como coordenadora e Gestora, desenvolvi uma visão estratégica global da organização, fortalecendo competências de gestão e a consciência de que liderar é escutar, servir e inspirar. Vi, na práctica, o impacto real de cada decisão na vida de uma criança e aprendi que o trabalho de bastidores – planeamento, monitorização e articulação – é tão vital quanto a intervenção direta.

RPS: O que te motiva, realmente, a trabalhar nesta área?

MS: Sou movida pela motivação e crença de que proteger e promover os direitos da criança é actuar sobre o futuro da sociedade. Seja em Portugal ou nos PALOP, acredito que cada criança merece ser feliz, ouvida, segura. “Sou técnica no saber, mas voluntária na acção” resume um compromisso: não importa quantas vezes caímos, mas quantas vezes nos levantamos. É essa resiliência que me inspira todos os dias.

RPS: Como começaste a tua ligação com esta causa?

MS: Desde sempre me incomodaram desigualdades: sentia que as crianças eram particularmente vulneráveis. Em 1993, juntei-me ao Projeto Rua, num envolvimento progressivo e honesto, mas que rapidamente se tornou a minha missão de vida. Foi amor à primeira vista! A infância sempre me cativou  e foi o terreno que confirmou o impacto que podia ter na minha vida.

RPS: Qual o teu percurso no IAC?

MS: Entrei em 1993 como técnica no Projeto Rua, quando terminei a licenciatura em Política Social. Em 1999, assumi a Coordenação Geral desse sector de intervenção. Posteriormente, integrei a Direcção do IAC e ocupei cargos como Tesoureira e de Gestão Técnico-Financeira.  Hoje, sou Vice-Presidente da Direcção. Paralelamente, sou formadora certificada e fiz o mestrado e doutoramento em Política Social, com foco na protecção da criança, migrando da intervenção técnica para a investigação aplicada, especialmente sobre crianças em situação de rua em contextos frágeis, nos PALOP.

Também represento o IAC em várias redes interinstitucionais nacionais e internacionais, especialmente nas áreas da infância em risco e da situação de rua. Tenho ainda contribuído para o desenvolvimento de metodologias e formação técnica, além de manter actividade científica e de advocacia pelos direitos da criança.

RPS: Que experiências te prepararam para este papel de liderança?

MS: O contacto diário com a dura realidade do terreno, o testemunho de histórias de vida, as exigências pessoais e profissionais, e o apoio incondicional da minha mãe, irmãos, marido, filho e amigos de longa data. Essa convivência permanente com o desafio, a aprendizagem e a resiliência moldou uma liderança emocionalmente inteligente, técnica e ética.

RPS: Tiveste alguma mentora ou inspiração especial?

MS: Sim, a Dra. Manuela Ramalho Eanes, fundadora e atual Presidente Honorária, inspirou-me com a coragem de centrar a infância na agenda nacional e pelo grande amor que tem pelas crianças. A Dra. Adelina Odete Marques, fundadora do Projeto Rua, por todos os ensinamentos técnicos; e a Dra. Dulce Rocha, ex-presidente do IAC e atual presidente da Mesa da Assembleia Geral, pelos inúmeros conhecimentos que me transmitiu, entre eles o de nunca perder o foco no essencial. Foram, sem dúvida, os meus faróis profissionais: ensinaram-me a firmeza, a escuta activa e a perseverança.

RPS: Um momento marcante que reforçou o compromisso com esta causa?

MS: No início da minha experiência profissional, uma criança em contexto de rua na comunidade, disse- me: “Estou fechada na rua, até a minha mãe regressar do trabalho“.  Mais tarde, depois de conhecer os animadores de rua, disse-me: “Agora sinto-me segura”.

Esta frase resume o propósito, a certeza de que vale a pena continuar. A escuta, o cuidado e a segurança transformam reais obstáculos em utopias realizáveis.

RPS: Qual foi o maior desafio enfrentado?

MS: A impotência diante da lentidão burocrática, quando a intervenção ágil é urgente. Porque o tempo da criança é Hoje. Mas esses momentos reforçam a nossa força, a nossa resiliência e a capacidade de trabalhar contra o relógio, com empatia e coerência.

RPS: Que lições aprendeste ao longo destes anos?

MS: Que a transformação nasce da confiança genuína, da persistência e da construção colectiva. Que cada criança tem potencial e que a política social deve ser construída com tempo, presença, ciência e resiliência.

RPS: Como lidas emocionalmente com a exigência do trabalho?

MS: Com apoio familiar, o suporte da equipa, supervisionamento e a convicção de que cada gesto de cuidado e cada escuta podem mudar o percurso de uma criança. Às vezes, é preciso parar para continuar, com resiliência.

RPS: Este trabalho mudou a tua visão do mundo?

MS: Sim. Mostrou-me a profundidade das desigualdades e também a força de quem, mesmo diante da adversidade, luta e cresce. Tornou-me mais humana, consciente, esperançosa e disposta a agir.

RPS: Influenciou a tua vida pessoal?

MS: Profundamente. A escuta, o amor incondicional e a valorização da simplicidade tornaram-se presentes na minha forma de educar, amar e estar no mundo.

RPS: Que legado pretendes deixar?

MS: Um IAC robusto, inovador, presente e próximo das crianças. Um IAC que deixa impressões duradouras na política pública, nos territórios e nas vidas. Um compromisso ético com a infância, que perdure.

RPS: Se pudesses mudar algo no sistema de apoio às crianças em Portugal?

MS: Tornaria o sistema mais célere, menos burocrático, com mais técnicos especializados. A criança precisa ser o eixo central das políticas públicas, sem intermediários ou atrasos.

RPS: O que ainda sonhas realizar nesta área?

MS: Sonho com uma estratégia única e integrada, que combata a violência contra as crianças e com a construção de uma rede nacional estruturada de apoio às crianças em situação de vulnerabilidade, com respostas integradas em Portugal e transferível para os PALOP — fruto de boas práticas e investigação partilhada. E com uma geração de técnicos capacitados, inspirados e respeitados.

RPS: Qual foi o conselho que mais guardas?

MS: “Escuta primeiro. Só depois age”. E também: “Não importa quantas vezes caímos, mas quantas vezes nos levantamos”.

RPS: A quem estarás eternamente grata?

MS: À minha mãe, aos meus irmãos, ao meu marido, ao meu filho, aos amigos de longa data e às minhas mentoras profissionais. E, sobretudo, às crianças que cruzaram o meu caminho — são os meus mestres.

RPS: Tiveste uma infância feliz? Qual a memória mais feliz?

MS: Tive uma infância feliz. Recordo os serões em família, cheios de histórias, gargalhadas, amor e segurança. Foi essa vivência que me inspirou a construir espaços de protecção para outras crianças.

RPS: Se só pudesses dar um conselho a uma criança, qual seria?

MS: Nunca deixes que te convençam de que não és importante. Tu és único, valioso e tens direito a sonhar. E lembra-te: os teus sonhos importam e haverá sempre alguém disposto a escutar-te e a caminhar ao teu lado.

 


Fotografias e Entrevista: Ricardo Pereira da Silva [RAWPHØTO]

Instituto de Apoio à Criança (IAC): YOU HAND ME | WEBSITE

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