Susana Gaspar: Pinto para me encontrar.

Susana Gaspar é a prova viva que ser artista, quando conhecemos a nossa missão, não tem que estar agarrado a um certo status quo, nem trazer consigo um estilo de vida ou uma disrupção constante com os valores essenciais. Começou a pintar enquanto esperava pelo seu marido, para jantar. Simples, assim. E nesse tempo de espera, começou a ilustrar, na tela, a alma da artista que vive dentro de si, desde cedo, pela forma como vê e sente, a cada olhar, o que a rodeia; e que tenta pintar, para se encontrar e para desafiar, através da cor, o cinzento em que o mundo se está a tornar, porque ela acredita que a arte nos torna mais humanos.
Nesta conversa, a propósito da sua nova exposição, desta vez em Lisboa, descobrimos a Susana que poucos conhecem: a mulher, a mãe, a empresária e a artista, que convivem numa sobriedade própria de quem gosta mais de observar e exprimir-se através dos pincéis, do que falar de si própria; apesar de rir e conversar serem qualidades reconhecidas, para os que privam com ela.
Ricardo Pereira da Silva (RPS): Que idade terias se não te dissessem a idade que tens?
Susana Gaspar (SG): Dizia-te que tenho vinte anos.
RPS: Se a tua infância fosse uma fotografia, que fotografia seria?
SG: Podiam ser muitas. Mas tenho a memória de partir os pratos à minha mãe, porque eu nunca queria comer. Achava que era muito chato as pessoas terem que estar sempre a comer e, por isso, não percebia porque é que tinha que estar sempre a comer. A minha avó dizia-me que eu ia morrer à fome. E a minha mãe ficava muito zangada por eu lhe partir os pratos e ameaçava sempre que ia chamar a Polícia para me ir buscar. Acontece que, à época, o meu pai estava na GNR, em Lisboa, e vinha a casa raramente; e quando vinha, eu via um polícia fardado a chegar a minha casa e como não o reconhecia logo, fugia para casa da minha avó, com medo que tivesse chegado o momento da minha mãe cumprir a ameaça.
RPS: Isso tornou-se uma memória feliz, para ti?
SG: Tornou. Hoje, deviam era chamar a GNR para não comer! (gargalhadas)
RPS: Se a esperança de vida fosse de 60 anos e se o soubéssemos à nascença, tinhas vivido da mesma maneira ou de uma forma diferente?
SG: Acho que tinha vivido igual, porque a minha vida foi tão intensa, tão ocupada. Quiçá tivesse viajado mais. Não quer dizer que não tenha viajado, mas se calhar desprendia-me mais das obrigações e ia.
RPS: Se pudesses dar um só conselho a uma criança, qual seria?
SG: Dizia-lhe para aproveitar, para viver, para saltar os muros e ir brincar para o recreio, como eu fiz: de andar de casa em casa, com os vizinhos e a brincar sempre na rua; ou, simplesmente, a explorar os seus sentidos, desfrutando da natureza: sentir as fragrâncias do mar ou da terra; saborear a bênção do vento e da chuva no rosto.
RPS: Tens adiado demasiado, algo de muito importante na tua vida, para além de viajar?
SG: Sim, esta questão da arte, na minha vida, pode dizer-se que tem sido uma questão adiada.
RPS: Há alguém que te preocupes em nunca desiludir?
SG: Tento sempre não desiludir as pessoas, no geral.
RPS: E há alguém a quem estarás grata para sempre?
SG: Sim, aos meus pais por me terem aturado tanta coisa, ao meu marido por me ter ensinado e motivado tanto e aos meus filhos, porque também aprendi tanto com eles.
RPS: Já na vida adulta ou enquanto crianças?
SG: A vida toda. Os meus filhos têm-me ensinado de tudo. São os primeiros a trazer-me as novidades, são os primeiros a exigir o melhor de nós, garantindo que também nós evoluamos com eles. E eu gosto e preciso disso.
RPS: Há algum conselho que tenhas recebido de alguém e que guardas até hoje?
SG: Amanhã é sempre um novo dia. E nunca desistir, porque o futuro constrói-se no presente. São lemas que eu trago da minha mãe, que foi sempre uma mulher de muita energia e muito positiva. E eu também sou uma pessoa muito positiva e isso é o meu motor.
RPS: O teu maior sonho alguma vez se tornou realidade?
SG: Tenho tido muitos sonhos e tenho-os realizado praticamente todos.
RPS: E medos?
SG: Medos também tenho. Que se tenha tornado realidade, não tanto. Mas tenho medo de perder os meus. E já perdi a minha mãe.
RPS: Há alguém que queiras muito visitar e tenhas vindo a adiar demasiado?
SG: O meu pai. Gostava de estar mais tempo com ele.
RPS: Posso perguntar porque é que não estás?
SG: O meu pai está sempre ocupado! (risos) Estou sempre a convidá-lo para ir almoçar ou jantar e ele, que tem 91 anos, tem sempre planos e coisas para fazer. E consegue estar sempre mais ocupado do que eu.
RPS: Mas tem hobbies?
SG: Não, ocupado com trabalho! O hobby dele é o trabalho: é o que ele gosta. E ainda conduz! Quando vai a minha casa almoçar ou jantar, depois volta sempre para casa dele, a conduzir.
RPS: É mais fácil reconhecer-te através das tuas pinturas, do teu olhar ou duma conversa contigo?
SG: Eu acho que é um misto. As minhas obras dizem um bocadinho de mim. Mas eu gosto muito de relações, gosto muito de pessoas, gosto de uma boa conversa, gosto muito de aprender, gosto muito de estar com pessoas interessantes, com quem eu sei que tenho sempre alguma coisa para aprender. E, às vezes, nem só nas conversas mais desafiantes: estar, somente, com as pessoas que a gente gosta, é sempre muito bom. Gosto do convívio, em si.
RPS: E o cuidado que tu possas ter com o que os outros pensam de ti, pode, alguma vez, ter alterado as tuas obras ou o teu olhar ou a tua conversa?
SG: Não, porque eu nunca ligo muito àquilo que dizem de mim. Até mesmo porque sinto que o que dizem de mim, quase nunca chega a mim. Sou muito desligada dessas coisas e não sou uma pessoa que se influencie por aquilo que os outros dizem ou fazem. É claro que, sendo uma pessoa muito observadora e por gostar tanto de observar as pessoas, também tento aprender com as virtudes e com os erros dos outros. E tenho muito gosto de aprender com elas, tanto a nível pessoal como profissional. Temos sempre alguma coisa para aprender.

RPS: O que mais inspira a tua pintura: lugares, pessoas ou emoções?
SG: Emoções.
RPS: E há algum elemento ou tema que gostes mais de pintar, esteja o mesmo visível para os outros ou só para ti?
SG: As cores. Gosto de jogar e de pintar com as cores, porque acho que a vida tem que ter cores, tem que ser alegre. As vidas são pesadas para todos, de alguma forma, não é? E eu sou uma pessoa muito positiva, muito otimista e muito alegre. E vejo sempre a parte boa das coisas. Vejo sempre uma saída, uma alternativa, há sempre uma mão amiga, há sempre uma conversa. E todas as pessoas têm coisas boas e eu tento sempre focar-me mais nisso. Por natureza, tendo, mesmo, a esquecer-me das coisas menos boas das pessoas.
Acho que temos que pôr cor e alegria na vida das pessoas. E a arte também tem esse papel: a arte inspira, emociona e pode ser simples, uma representação ou outra perspectiva do nosso quotidiano e das nossas emoções, que estão lá. Sejam as de quem cria ou de quem observa a obra.
RPS: Há alguma constante na tua pintura, como a alegria ou a angústia, a calma ou a preocupação?
SG: Não. Para mim, a pintura é liberdade. Sinto-me eu própria, quando pinto, esteja como estiver nesse momento.
RPS: Pintas para te afastares de ti ou para te encontrares contigo?
SG: Para me encontrar. É o meu momento.
RPS: Qual é o percurso que vai desde a ideia de uma obra, até ao momento em que decides que é uma obra acabada?
SG: É imediato. É logo: eu não fico a pensar; tenho que fazer logo. Sou de fazer acontecer, no momento em que penso.
RPS: Pensas no momento em que estás em frente à tela ou estás no duche e tens uma ideia…
SG: É mais no momento em que estou decidida a pintar e estou em frente à tela. Mas também tenho alturas em que penso querer fazer uma obra com esta ou aquela característica, mas depois, normalmente, sai sempre alguma coisa diferente. Raramente me acontece transmitir para a tela, exactamente aquela ideia que tive antes.
RPS: Será porque tens, em ti, o lado mais executivo, que está habituado a dizer: É para resolver e é para resolver já?
SG: Talvez tenha essa influência, porque eu gosto muito de pôr a mão na massa, de começar e acabar uma coisa.
RPS: E como é que tu sabes – se é que sabes – quando é que uma obra está acabada?
SG: Uma obra nunca está acabada. Há sempre mais uma pincelada para dar, mais um jeito aqui e outro acolá. É como educar os filhos: a minha melhor obra são os meus filhos, mas esse trabalho nunca estará finalizado. Os nossos filhos estão sempre a evoluir e nós também. E uma obra, desse ponto-de-vista, é igual. Hoje vemos de uma maneira, amanhã já vemos de outra.
Há sempre um novo dia, em que vemos as coisas de uma maneira diferente, porque a vida muda-nos a cada dia e não nos deixa ver sempre igual.
RPS: E como aconteceu começares a pintar?
SG: Não sei. Foi de uma forma muito natural. Eu lembro-me que gostava muito de ir para casa dos meus avós, que era perto da casa dos meus pais e, por isso, eu estava sempre a fugir para casa deles, que era em Arrabal, perto de Leiria. A casa ficava no meio de dois rios e eu adorava ir ver a água a correr. Estava ali horas, a olhar, a ver a água a correr. Ainda hoje, adoro deter-me a contemplar a água dum rio a correr ou a olhar a ondulação do mar.
E foi lá que eu comecei a ir buscar seixos rolados ao rio e depois pintava-os. Foi assim que comecei a pintar. Desde muito nova, que vejo arte em tudo: olho para uma árvore e vejo os ramos de uma forma artística; olho para uma casa, a mesma coisa. Tudo me inspira.

RPS: E quando começaste a pintar quadros?
SG: Comecei a pintar mais tarde, ainda os meus filhos eram pequenos. Comecei a pintar, sobretudo, enquanto esperava pelo meu marido, para ele não jantar sozinho. Depois parei e, mais tarde, na pandemia, comecei novamente a pintar mais, por estarmos confinados. E foi, também, uma forma de me encontrar.
RPS: Há alguma das tuas obras que consideres mais especial?
SG: Tenho uma muito marcante e que é especial por esse motivo: foi no dia em que fechei o Your Hotel, por causa da pandemia, e isso foi um choque para mim, foi muito marcante.
RPS: És a mesma pintora desde que começaste ou algo mudou em ti e nas tuas obras?
SG: Mudou muito. Mudou, porque eu gosto muito de experimentar materiais diferentes, gosto muito da experiência, gosto muito de fazer trabalhos em papel, mas também em tela, gosto de acrílico, gosto de experimentar, gosto da aventura.
RPS: Usas a arte para te expressares e cresceres interiormente ou para partilhar e alterar a consciência dos outros?
SG: Ambas, porque é muito importante pintar, para mim, mas também sei que a arte toca consciências, toca emoções, traz novos pensamentos, faz as pessoas pararem para pensar. Faz com que as pessoas sejam mais humanas, pensem mais na vida, mais no que é essencial e importante na vida.
RPS: É esse o grande papel que o artista tem no mundo?
SG: Acho que sim. Nós temos uma missão. E acho que essa missão é dar cor e emoção à vida dos outros.
RPS: Enquanto artista, tens algum sonho que ainda te falta realizar?
SG: Nós temos sempre objetivos. E um dos meus objetivos é, um dia, quando já não estiver cá, saber que toquei alguém, de alguma forma.
RPS: Tens algum ritual ou rotina, quando estás a planear ou a criar uma obra nova?
SG: Tenho sempre que pôr música. A música faz-me bem à alma.
RPS: Que tipo de música pões?
SG: Ponho música clássica, mas outras vezes ponho música dos anos 80, como Pink Floid, Beatles ou Queen.
RPS: Tens ideia dos sentimentos que te visitam quando estás a pintar?
SG: Sinto-me muito tranquila e bem comigo própria, sobretudo. Sinto que há uma energia que se desenvolve, ali, naqueles momentos, como se fosse um retiro. É o meu momento, é o meu refúgio, onde gosto de estar sozinha.
RPS: Tens algum conselho para outros artistas que estão a iniciar a sua jornada?
SG: Tenho. Vão, experimentem, avancem, não tenham medo. Eu sempre fui muito curiosa, sempre gostei muito de ir a galerias e apreciar o trabalho de uns e de outros, sempre pesquisei muito. Conheci, pessoalmente, o Cargaleiro e adorei conhecê-lo. São pessoas tão fascinantes, têm histórias tão bonitas para nos contar. E temos sempre tanto para aprender, a todos os níveis.
RPS: E há algum pintor que admires, técnica ou biograficamente?
SG: O Cargaleiro é um deles, por exemplo. Admiro a técnica dele, tal como gosto da Vieira da Silva, falando dos portugueses. Noutro plano, gosto, por exemplo, da técnica do Vhils, tão ‘fora da caixa’. Mas temos tantos artistas bons e até artistas pouco conhecidos, que trabalham tão bem, fazem coisas belíssimas.

RPS: Há algo que falte na tua vida profissional e que procures na pintura?
SG: O que me falta sempre é tempo. Ando sempre numa luta contra o tempo. Mas tenho conseguido levar a arte para a vida empresarial, no sentido de levar mais sensibilidade. E as pessoas sentem isso e dizem-me. Ainda ontem, pedi para porem flores num dos escritórios e uns colaboradores mandaram-me uma mensagem com uma fotografia dessas flores. Achei tão bonito. É pouco e pode ser tanto. Na arte e nas empresas, os detalhes fazem tanta diferença.
RPS: Há algo em comum entre o executivo e o artista?
SG: Sim, porque nós temos que arriscar, mas também que cuidar bem das coisas; temos que fazê-las com brio e com gosto, temos que fazer com cuidado e com sensibilidade, que o artista também tem. E tem que haver espírito crítico, que é algo que o artista também tem.
RPS: E achas que se o artista não tiver que se preocupar com a vertente económica e comercial, que é melhor para ele?
SG: Acho. Porque está mais livre, sem dúvida.
RPS: E os artistas que enfrentam mais dificuldades na vida, ao nível da sua subsistência – como os casos conhecidos de Van Gogh ou Basquiat, entre tantos outros – ao experimentarem essa angústia da fragilidade humana, podem atingir outros níveis de profundidade emocional, que se revele na sua arte?
SG: A vida da pessoa influencia, sem dúvida, o artista. E a angústia também influencia muito, porque é uma forma, muitas vezes, de expressão do artista, que extravasa através da arte essa mesma emoção. Há sempre necessidade de expressar a emoção. E nesses extremos encontramos facilmente muito conteúdo.
RPS: Que conselho darias às pessoas que tentam equilibrar uma vida profissional exigente com um hobby criativo?
SG: Diria que o tempo é igual para todos e que é uma questão de estabelecer prioridades. É essencial à vida, as pessoas fazerem aquilo que gostam. Nem que seja menos tempo. E um hobby, como qualquer vocação pessoal, é muito importante para o equilíbrio humano, familiar, psicológico e até profissional. Um hobby traz-nos outras perspectivas sobre a vida. E torna-nos mais humanos. E é preciso termos a noção que as pessoas estão a ficar demasiado máquinas e que estamos a bloquear oportunidades de humanização. E a arte, seja como hobby ou profissão, é uma excelente via para nos mantermos humanos e humanizados.
RPS: Porquê o título Bloom, para esta exposição que inauguras este mês, em Lisboa?
SG: A explosão da Natureza e das suas cores, faz parte da minha vida e da minha pintura. É fácil encontrar fragmentos evidentes desta temática, em grande parte das minhas obras, quer em desenho, quer por elementos.
Fotografias e Entrevista: Ricardo Pereira da Silva [RAWPHØTOLOGY]
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