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Junho 7, 2020
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Maria Fernandez: O momento da refeição deve ser um momento de aprendizagem e de amor.

/ PROSTØRIES

Estamos numa época em que se questiona a validade de tudo e mais alguma coisa, e também dos métodos educativos vigentes há pouco mais de 20 anos. Num ponto-de-vista mais pessoal, e que decorre do facto de eu ter uma profissão na qual tenho o privilégio de ver as pessoas como pessoas e para lá do que elas mostram e promovem publicamente, vejo demasiadas pessoas e um Mundo que é muito mais movido por Paixão (esse sentimento que tem muito mais a ver com auto-validação, do que com qualquer outra coisa ou pessoa) do que por Amor (o mais nobre e bonito dos sentimentos, cujo combustível é a felicidade e o crescimento dos outros, naquilo que os faz felizes e mais válidos a eles). Se há quem pense que Paixão e Amor são sentimentos que só se aplicam às relações amorosas, é cada vez mais evidente para mim, que também na decisão de ter filhos e na sua educação, há uma diferença notória do sentimento que lhes está na origem. E se há coisa que aprendi e confirmei ao conversar com a Maria Fernandez, é que ela sabe o que é Amor, como mãe e como profissional. E de entre os vários benefícios que ela me deu a conhecer sobre o Baby Led Weaning, fiquei com aquele que mais me emocionou: ‘É uma abordagem para introduzir os alimentos aos bebés, da forma mais natural para eles’ – segundo a Maria. Mas parece-me evidente que é também uma excelente forma de introduzirmos o Amor e o crescimento saudável na vida deles.

Ricardo Pereira da Silva (RPS): Duma forma resumida, o que é o Baby Led Weaning (BLW)?

Maria Fernandez (MF): É uma abordagem de introdução dos alimentos aos bebés, da forma mais natural para eles, na qual os próprios bebés vão dirigir o processo desde o início, em autorregulação, com inúmeros benefícios para o bebé e para a família, incentivando a autonomia e respeitando o seu ritmo e as suas escolhas no momento da refeição.

RPS: Como é que alguém que começa a sua carreira em Enfermagem, vem a ser especialista em Saúde Materna e Obstetrícia?

MF: Tive, desde sempre, uma paixão pela Obstetrícia e, não sendo a área onde sempre trabalhei, sempre tive esse sonho. Trabalhei 10 anos na área da Neurologia e, 2 anos depois, na Neurocirurgia. Mas há algo que é transversal à Enfermagem, que é a humanização dos cuidados, e que foi sempre a minha principal preocupação. E acabei por me decidir pela especialização na área que sempre me apaixonou – a Obstetrícia. E, pouco tempo depois, consegui a transferência para uma das maiores maternidades do país, em Lisboa.

RPS: Estás em Portugal há quanto tempo?

MF: Há 18 anos.

RPS: Foi esta especialização ou foi algo que viveste nesta função, que te levou ao interesse pelo BLW?

MF: Dentro das competências específicas do enfermeiro especialista em enfermagem de saúde materna e Obstetrícia, está a promoção da saúde da mulher e do bebé no período pós -natal, o que inclui a alimentação do bebé nesse período. O interesse por esta área, surgiu especialmente a partir desta especialização.

RPS: O que despertou o teu interesse no BLW?

MF: A dimensão da alimentação e da nutrição sempre me interessaram bastante, desde o início da minha profissão; e, por isso, sempre fui à procura de mais conhecimento e das melhores soluções nesta área da Nutrição Pediátrica. Percebi que, entre elas, o BLW era algo já muito natural noutros países, enquanto abordagem alternativa à tradicional, e com benefícios evidentes.

RPS: Há alguns países onde já não seja visto como algo mais alternativo?

MF: Sim. Inglaterra, Espanha, Austrália, nos Países Nórdicos e em tantos outros. Em Espanha, por exemplo, os pais saem da consulta do pediatra com um folheto que contém explicações sobre a opção tradicional e o BLW. E os pais escolhem qual preferem: a tradicional (a dos triturados), o BLW ou se fazem um misto.

RPS: Costumo dizer que aquilo que nos faz falta e também que mais nos cansa no nosso dia-a-dia, pode ser facilmente – se estivermos atentos – o melhor indicador para a criação de bons conceitos e negócios. Achas que o BLW foi uma resposta óbvia e que tu valorizaste, como profissional e como mãe, para algo que estava em falta no método tradicional de alimentar um bebé?

MF: O BLW é algo que, para mim, faz todo o sentido, sobretudo porque, no meu contacto diário com as famílias enquanto profissional, percebi que havia algo no método tradicional que não resultava e que havia que mudar. Continua a recomendar-se que as nossas crianças comam o mesmo que há trinta anos. O método tradicional deu resposta, durante muitos anos, a problemas que havia antigamente, como a fome e a consequente desnutrição. É difícil crescer saudável com pratos cheios de farinhas refinadas, gorduras hidrogenadas e açúcar nas suas várias formas. O BLW e estas abordagens mais inovadoras, vêm dar resposta aos problemas e carências mais actuais, nas sociedades mais desenvolvidas. Por isso, as famílias procuram estas abordagens mais actuais, porque sentem que dão resposta ao que os bebés de hoje precisam. Cada vez mais as pessoas procuram abordagens que as protejam das doenças e da obesidade, e que sejam mais sustentáveis . Por exemplo, há um estudo que demonstra que um grupo de pessoas com tendência diabética, foram submetidas aos hábitos de vidas dos indígenas por alguns meses, e baixaram drasticamente os níveis de açúcar no sangue, porque, tal como eles, deixaram de beber o sumo da fruta isoladamente e passaram a ingerir a fruta inteira. Os povos indígenas não sabem o que são diabetes.

RPS: A que nível vem, o BLW, dar resposta aos problemas e carências mais actuais?

MF: Dá resposta em termos de parentalidade, na qual os pais olham para o bebé como alguém único e que tem necessidades e precisa de estímulos únicos. E, por isso, querem aprender a ler os seus bebés e perceber o que eles precisam em cada momento para crescerem saudáveis. E o BLW é uma forma de apresentar os alimentos aos bebés na qual é o bebé que nos guia, conforme os sinais de fome e de saciedade que o próprio bebé sente, e não conforme os critérios rígidos dos pais.

RPS: Não são os pais que guiam o bebé e decidem sobre a fome e a saciedade dele, mas o contrário…

MF: Sim. É o próprio bebé que vai dizendo quando tem fome e quando começa a ficar satisfeito. É uma forma de alimentar, baseada no respeito pelos instintos do bebé, e que fomenta também a sua autonomia. Porque os pais têm todo o interesse em que os bebés desenvolvam as suas capacidades ao máximo e este método ajuda-os também nesse sentido.

RPS: O bebé autorregula a sua alimentação, mas mais ao nível da quantidade de alimentos que os pais colocam no prato; ou também da qualidade dos nutrientes?

MF: A autorregulação acontece ao nível da quantidade, na medida em que é o bebé que controla os seus próprios sinais de fome e saciedade, mas existe também a crença que o bebé sabe o que precisa, por instinto. Por exemplo, as famílias dizem-me várias vezes que os seus bebés, com apenas 6 meses, mostram especial preferência por certos alimentos, como o frango ou o ovo, que são ricos em ferro – que é um micronutriente do qual os bebés precisam imenso aos 6 meses. E se os deixarmos decidir o que vão comer em maior quantidade, eles vão guiando os pais no sentido de lhes dizer o que mais precisam nesse momento. E com um ano, quando começam a andar e a ter mais gastos de energia, normalmente, dão preferência às massas ou arroz, que são alimentos que aportam importantes quantidades de energia. Este método também tem uma outra vantagem, que é fomentar a confiança dos pais no bebé. Contudo, há uma ressalva que devo fazer: os pais devem apresentar aos bebés, refeições equilibradas em termos de nutrientes. Por isso, esta abordagem é tão interessante, porque também leva os pais a querer aprender mais sobre a alimentação dos filhos e acaba por acontecer uma mudança alimentar positiva em toda a família; e daí existir um curso para esse efeito, associado à escolha do BLW como método de alimentação. Há quem ache que o BLW é o método do ‘vale tudo’, mas não podiam estar mais enganados. O BLW promove a autonomia e a autorregulação, mas acima de tudo o equilíbrio de nutrientes e um comportamento alimentar saudável.

RPS: Ou seja, ensinas os pais a tirar o melhor partido do BLW, adaptando a melhor dieta em função do seu momento de crescimento…

MF: Sobretudo, como apresentar os alimentos ao bebé, de forma equilibrada, mas também segura. Segura, porque não pode faltar energia. Ou seja: o bebé não pode ficar menos alimentado do que se comesse uma papa; e não pode faltar ferro, que é algo essencial aos 6 meses; entre outros nutrientes fundamentais. Hoje em dia, as recomendações, a nível internacional, dizem que não há um alimento melhor do que o outro para começar a introdução da alimentação complementar, mas o ferro tem que ser uma prioridade. E é essencial que os pais tenham isso presente: o aporte de energia, o ferro e existir variedade de oferta de hortofrutícolas. Ou seja, também tem de haver sempre um legume ou uma fruta no prato do bebé.

RPS: Pela tua experiência, o BLW ajuda a resolver a resistência duma grande parte dos bebés aos vegetais triturados, que são dados pelos pais, no método tradicional?

MF: Sim. Na minha experiência, os bebés que são alimentados através da abordagem BLW, têm realmente uma apetência muito grande por vegetais e por fruta. Mas a evidência científica também afirma isso: com 2 anos, estes bebés têm maior apetência natural por um leque maior de hortofrutícolas.

RPS: Ou seja, não é só quando eles se autorregulam que têm mais facilidade em gostar de legumes, mas depois continuam a manter esse gosto natural pelos mesmos?

MF: Sim. Vejo o entusiasmo nas crianças mais velhas, ao apreciarem alimentos saudáveis no seu estado natural, frescos e sazonais, pela variedade e na forma em que lhes foram apresentados com 6 meses

RPS: O que de mais útil aprendeste, enquanto mãe, que não se ensina em termos académicos, em termos do processo de alimentação infantil?

MF: Aprendi que não é tão eficaz ser o adulto o regulador do processo de alimentação do bebé. Aprendi que eles nos guiam, de forma a terem aquilo que eles sentem que mais precisam em cada momento. Devemos confiar e respeitar.

RPS: O momento de dar de comer a um bebé, é somente isso ou é muito mais do que isso?

MF: O momento da refeição deve ser um momento de aprendizagem e de amor. O momento em que olhamos para os olhos dos nossos bebés e das nossas crianças e temos uma conversa agradável. A OMS diz isso mesmo. E eu não podia concordar mais.

RPS: Que não se coaduna com os tempos em que vivemos, em que os pais, por norma – que tem mais de cansaço do que falta de amor – querem é despachar esses momentos e cumprir a tarefa de alimentar bem o seu bebé com o menor impacto possível nas suas próprias tarefas…

MF: Se olharmos para uma abordagem mais tradicional, o mote normalmente é ‘Despacha o bebé, dá-lhe a sopa e a papa; e a seguir jantamos nós com calma’. Na realidade, não resulta. Porque nem é fácil ‘despachar’ um bebé num processo que para ele é novo e de descoberta; nem é adequado, para a sua saúde não deixar que o bebé guie o seu próprio ritmo, porque vai trazer consequências a curto e a longo prazo, como a obesidade infantil – que nem é das que tem pior prognóstico. Ou seja, não respeitar o ritmo e os próprios limites de saciedade e fome do bebé, pode trazer consequências importantes no longo prazo. No BLW vamos todos partilhar a refeição e incluir o bebé desde cedo nesse momento tão importante para o seu desenvolvimento, a vários níveis. E vamos poupar imenso tempo, na confeção – se soubermos como fazê-lo – e na partilha das refeições à mesa. E se o bebé precisar de mais tempo, isso não colide com os tempos dos adultos de forma tão impactante.

RPS: Achas que os pais põem naturalmente mais atenção e até mais amor no momento de levar os filhos para a cama do que no momento das refeições – numa perspectiva de partilha de afectos, de formação pedagógica e de boas memórias – depois de passado aquele momento de novidade, quando os filhos deixam o leite materno?

MF:  Sim, aliás acho que cada vez temos menos tempo para tudo e já começamos mesmo a encurtar as histórias que lhes contamos ao deitar; e eles já detectaram isso e dizem ‘Não, mãe, estás a saltar uma parte!’… Eles percebem, da mesma forma que percebem que os estamos a forçar a alimentarem-se. E isso não é bom, porque a mensagem que transmitimos ao tentar dar-lhes um alimento que não querem ou quando não o querem, não é uma mensagem positiva para o seu desenvolvimento físico e mental. Estamos a alimentá-los dentro da janela de tempo e na quantidade que nos é mais conveniente a nós e à nossa consciência.

RPS: Acreditas que na origem do hábito de tantos adultos, de comerem depressa e não terem prazer de estar à mesa, pode estar esse método de comer somente para saciarem a fome e ingerirem os nutrientes necessários para se manterem activos?

MF: Acho que tudo começa desde muito cedo, até mesmo desde quando estamos no útero materno… Por exemplo, o facto duma grávida comer uma grande variedade de alimentos, influencia desde logo a forma como o bebé se vai relacionar com os alimentos, mais tarde, e as suas escolhas. Um bebé, quando está no útero, já tem acesso aos aromas dos alimentos e a relação que o bebé estabelece com os alimentos, quando lhe são apresentados aos 6 meses, vai influenciar a relação com os mesmos no futuro. Acho, por isso, que tudo tem influência. E o BLW ajuda muito nesse sentido.

RPS: Portanto, o BLW é mais que um método para alimentar uma criança.

MF: Sim. Há coisas que são tão importantes como os nutrientes em si: a forma positiva como apreciam o momento da refeição, por exemplo; que influencia muito a saúde do bebé no futuro.

RPS: Nos últimos 20 anos tem-se falado muito das alegadas vantagens da Dieta Mediterrânica, como sendo boa para a saúde. E tem-se falado muito, por outro lado, das alegadas vantagens dos métodos educativos nórdicos, mais focados no desenvolvimento da personalidade e da naturalidade da criança. Achas que o BLW é um método que congrega as propaladas vantagens de ambas?

MF: Acho que faz todo o sentido, ainda que aquilo que conhecemos, hoje, por Dieta Mediterrânica, não tem nada a ver com a ideia original: se virmos os gráficos sobre Obesidade Infantil na Europa, temos à cabeça o Chipre, a Grécia, a Itália, Espanha e até Portugal. Portanto, não sei onde ficou a alimentação mediterrânica no meio disto… Se somos o que comemos, convinha alimentarmo-nos de forma saudável desde os primeiros contactos com os alimentos. É muito importante que os pais saibam reconhecer os sinais de fome e saciedade dos seus bebés. E estes métodos que os países nórdicos têm, se calhar, seriam a fusão perfeita para este processo. Eu recebo os bebés da consulta do pediatra e da consulta do nutricionista e muitas vezes os pais sabem perfeitamente o que devem dar aos bebés, mas vêm à minha procura porque não percebem perfeitamente como o devem fazer.

RPS: Se colocas um grupo de alimentos à disposição de uma criança, para ela gerir por ela própria o que come e quando come; o que devemos fazer quando esses alimentos acabam e ela mostra sinais de fome?

MF: Deve oferecer-se mais alimentos. O que costumo ensinar aos pais é colocarem num prato, pelo menos para começar, um alimento de cada uma das categorias ou grupos que citei. Se acaba, digo aos pais para reporem o prato, mas não tudo ao mesmo tempo, porque muitas vezes isso confunde o bebé e faz com que atire tudo ao chão. Devem repor de acordo com o que o bebé mostra querer mais – logo, precisa mais – em termos de nutrientes. Mas, como em tudo, cada caso é um caso, e é importante o bebé ser acompanhado por um especialista em BLW nos primeiros meses de idade.

RPS: Se não fosses o que és, profissionalmente, o que poderias ter sido para seres tão feliz quanto és?

MF: Cozinheira! A minha avó era cozinheira e eu passei muitas horas da minha vida na cozinha com ela. E foi lá que aprendi o mais importante sobre os aromas, os ingredientes, os alimentos, o cozinhar com amor… Adoro passar tempo na cozinha e divirto-me imenso com a minha filha a reinventar receitas tradicionais para adaptar ao BLW. Cozinhar para a família e para os meus amigos é algo que me traz muito boas lembranças e me faz muito feliz.

RPS: És de Leon, uma zona de Espanha de comidas mais pesadas. A dita ‘comida de panela’…

MF: Sim, como no norte de Portugal. Esse género de comida: comida vinda da nossa terra, do nosso mar,… Comida boa!

RPS: Teve influência nos teus hábitos alimentares e nos pratos que mais gostas, hoje em dia?

MF: Sim, teve influência, especialmente no prazer de comer e na alegria de partilhar os momentos de refeição em família. Mas como vivi noutros sítios, sempre fui muito aberta a experimentar novos sabores. Por exemplo, os coentros: há quem diga que se amam ou se odeiam. Eu já os odiei e agora amo-os.

RPS: Dar de comer, é a mais bonita, entre as várias formas de amar?

MF: Não é fácil responder a isso de forma inequívoca… Por exemplo, há muitas mães que acham que não são tão boas mães, se os filhos não comerem o que elas cozinharam com tanto carinho. Isso pode acontecer por imensas razões que têm só a ver com o estado de ânimo da criança ou com o facto dela estar com o desconforto próprio do nascimento dos primeiros dentes; ou tantas outras coisas. Nesse caso, temos que confiar na criança e pôr o nosso amor no acto de a compreender, em vez de no facto dela não ter comido o que nós fizemos com tanto amor.

RPS: És melhor profissional desde que és mãe?

MF: Sou uma profissional diferente, porque o facto de ter sido mãe me fez reflectir muito na forma como eu trabalhava e lidava com as necessidades e os problemas das famílias. A minha filha tem-me ensinado muita coisa e tem-me feito refletir sobre muitos aspetos da vida. Mas não diria que é preciso ser mãe para ser uma excelente profissional nesta área.


Fotografias e Entrevista: Ricardo Pereira da Silva [RAWPHØTOLOGY]

MARIA FERNANDEZ | BABY LED WEANING PORTUGAL: INSTAGRAMFACEBOOK

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