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Maio 31, 2020
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Joana Marcelino: A arquitecta das (boas) emoções.

 

/ PROSTØRIES

Diz-se que ‘não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão’. Já não é a primeira vez que dou por mim a filosofar sobre a validade desta expressão. Mas quando conheci a Joana Marcelino, essa não foi uma das vezes: ao fim de uns breves minutos, não só a primeira boa impressão estava conseguida, como se seguiram muitas mais. Seguiu-se uma sucessão de coincidências e cumplicidades de alma, de visão e de missão, em duas profissões que parecem ser tão diferentes, mas que não conseguem viver uma sem a outra: a Arquitectura e a Fotografia. Foi uma conversa sobre Arquitectura, mas quem não soubesse, poderia achar que era uma salutar discussão sobre Amor vs Paixão ou Arte vs Design. O tempo foi demasiado escasso para tanto que, de repente, descobrimos que tínhamos para conversar. Mas foi o suficiente para dar ainda mais sentido à letra de uma canção que sempre fez tanto sentido para mim: A house is not a home. Se dúvidas houvesse, esta é a entrevista que as dissipa. A Joana não é música, mas mostrou-me que conhece melhor do que ninguém o elemento essencial da boa Arquitectura: as Pessoas.

Ricardo Pereira da Silva (RPS): Porquê a Arquitectura, enquanto opção de vida?

Joana Marcelino (JM): Terei de  que recuar à minha infância, quase ao momento em que aprendi a falar… Nunca questionei o que queria ser na vida. Sempre tive certezas. Na altura, chamava-lhe ‘desenho de casas’. Lembro-me que, já na escola primária, os meus textos iam sempre dar ao ‘espaço’ e acabava a desenhar casas. Sempre com régua e esquadro. E um dia, aos 6 anos de idade, o Director Pedagógico fez uma visita à minha sala e, ao olhar para os meus cadernos, disse: ‘Eu já sei o que esta menina quer ser quando for grande: Arquitecta’. E foi nesse dia que conheci a palavra Arquitectura e que nunca mais tive dúvidas do que queria ser na vida. Claro que o facto da minha mãe ter imenso cuidado com a Decoração da nossa casa e o meu pai passar os fins-de-semana a comprar antiguidades para misturar com peças mais contemporâneas, teve influência sobre mim. Lembro-me de, já nessa altura, ter especial interesse pelos recantos das casas e perceber como estes poderiam ser ideais para promover estados de espírito; e também a minha preocupação sobre o equilíbrio entre os interiores e os exteriores. E sempre lutei pelo sonho. Percebi desde cedo que a Psicologia tem uma presença forte na ‘minha’ arquitectura. Lembro-me, inclusivamente, de no 12ª Ano me questionar se devia abandonar a Arquitectura e seguir Psicologia… Hoje sei que andam lado a lado: olho para  a Arquitectura como a ‘Psicologia do Espaço’. Na verdade, eu nunca questionei fazer somente uma arquitectura de programa e de interpretação do lugar. Os grandes percursos… Revejo-me numa arquitectura de escala mais humana.

RPS: O que entendes por Psicologia do Espaço?

JM: O espaço tem um papel fundamental nas nossas vidas, até na  forma como nos movemos. É algo que influencia o nosso estado de espírito, logo também as nossas acções. Uma casa do tipo minimalista, pode facilmente tornar-se numa casa desprovida de identidade. Há ali uma interpretação do lugar, mas raramente há a definição da personalidade de quem lá vive. Qualquer pessoa poderia habitar aquela casa, independentemente dos seus traços pessoais, mas muito poucas se sentiriam felizes nela. O que é bonito é entrarmos dentro do universo das pessoas – que é muito íntimo; das pessoas e da família, ou mesmo da empresa – que tem valores próprios e uma missão a transmitir – e passar essa identidade para o espaço. Quando isso acontece, é comparável à roupa que vestimos para sair à rua.

RPS: Ou seja, tem mais a ver com a aplicação da personalidade da pessoa ao espaço que vão utilizar; ou com a harmonização dos espaços, com vista ao bem-estar das pessoas que o utilizam – como é defendido, por exemplo, no Feng Shui?

JM: Tem a ver com o bem-estar duma forma generalizada, porque pode ter duas vertentes: a encomenda que vem por parte do cliente que quer uma casa e nesse caso terei de estudar esse mesmo cliente e tenho de transpor aquilo que ele é e a sua dinâmica, acrescentando sempre o ‘algo mais’ que provavelmente ainda não vislumbrou, mas que me cabe a mim antecipar, com base na leitura dos dados que  fornece; ou, então, uma empresa, que tem valores e uma missão bem definida e enraizada, e aí o meu papel será influenciar o utilizador do espaço – do colaborador ao cliente – para ir de encontro ao seu bem-estar, mas também aos objectivos de quem encomenda o projecto.

RPS: Se tivesses que escolher só uma das definições, dirias que a Arquitectura é Arte ou é Design?

JM: É a base para a Arte e para o Design. Na Arquitectura cruzamos as duas, mas também outras disciplinas. como a Moda, por exemplo. Até uma loja de vestuário  precisa de um enquadramento que vá ao encontro do produto, para que o mesmo seja bem sucedido junto do cliente. O que seria a Moda sem a Arquitectura? Um desfile sem cenário e sem contexto? Um quadro, por exemplo, tem outra presença quando está numa parede que melhor o enaltece. No inicio da minha incursão no Design de Produto, tive a sorte de me cruzar com o Marcel Wanders, e perguntei-lhe: ‘Como se atreveu a desenhar um cavalo à escala real, se apenas tem o detalhe  de uma lâmpada no topo da cabeça?’ Ele respondeu: o problema não está na peça, mas nos arquitectos que desenham as casas sempre com o mesmo pé-direito. E aquilo fez-me ver o quão importante é fazermos interpretações diferentes e levadas ao limite, porque todos somos diferentes uns dos outros. Devemos criar espaços que facilitem a inclusão do elemento Diferença..

RPS: Lembro-me de crescer com a ideia que quando ouvimos o termo ‘Casa de Arquitecto’, o associamos de imediato a um devaneio artístico e a uma prova de criatividade do próprio arquitecto; mas que normalmente se revela num conjunto de soluções useless e com pouca ou nenhuma preocupação com a identidade e o tipo de vida de quem vai habitar essa casa. Como se fosse uma casa mais para mostrar do que para habitar, como um hábito que havia tanto nos anos 80, que era ter uma sala só para as visitas e a ‘sala de todos os dias’ – que era sempre a mais ajustada à vida das pessoas da casa. As grandes obras de Arquitectura em Portugal, espelham esta minha percepção?

JM: Sem dúvida. Lembro-me que quando, em 2005, montei o atelier, queria muito trabalhar em projectos no seu todo, até à execução; e os clientes referiam que só queriam o arquitecto para desenhar o projecto à escala 1/100 até à fase de licenciamento, porque depois seria um ‘bico de obra’. E eu pensava que a Arquitectura não podia ser só um devaneio… É claro que se estivermos a falar duma encomenda pública, certamente o executivo quer deixar uma marca emblemática no território e para isso vai procurar uma obra de arte, acima de tudo. Mas o mesmo não faz sentido num cliente final que é também o utilizador duma obra no seu dia-a-dia. A Arquitectura tem que partir sempre daquilo que o cliente nos dá, e nunca daquilo que eu acho que o cliente tem de querer. É o mesmo que ir a uma loja para comprar um vestido e quem me atende tentar vender uma peça que acha maravilhosa, mas na qual não me reconheço nem me sinto confortável.

RPS: Quando desenvolves um projecto para uma empresa, o teu foco é o cliente que te paga o projecto ou quem vai utilizar o mesmo?

JM: A base assenta nos valores e na missão da empresa. Mas o foco está no utilizador. Eu só consigo ter sucesso com o meu projecto, se ele for um sucesso para quem o utiliza. E nesse caso eu trabalho muito o subconsciente. Ou seja, eu quero que o cliente-utilizador compre, mas se sinta bem a comprar, porque há uma harmonia entre o produto que compra e o espaço onde compra. Ter um espaço muito bonito, onde ninguém vai porque o produto é mau ou está desajustado ao espaço não funciona.  Penso que através da Arquitectura trabalho a relevância do espaço para aquela pessoa, no subconsciente, fazendo com que ela se lembre naturalmente de ir àquele e não a outro.

RPS: Um exemplo concreto disso…

JM: Os dois postos de abastecimento de combustível da BP, são o caso mais recente. Os postos de abastecimento sempre me suscitaram curiosidade: vamos lá com frequência comprar um produto que é industrial, raramente o vemos e não é particularmente agradável ao olfacto. Não entendo como não foram já repensados! Porque se o utilizador vai todas as semanas abastecer-se e uma parte da margem do negócio vem da loja, porque é que as lojas ainda não mudaram todas a sua lógica? Além dos combustíveis, existem outros produtos que podemos adquirir e consumir num posto de abastecimento: comprar pão, comprar uma revista, refeições, etc.

RPS: Em que medida estes postos da BP ganharam com a tua intervenção?

JM: Ganharam clientes que não eram habituais do posto. Estão localizados na EN1, numa zona residencial e a poucos quilómetros da Zona Industrial de Leiria. Hoje em dia as pessoas fazem pausas nas empresas para irem tomar café ou lanchar à BP, porque a selecção de produtos está em harmonia com a nova arquitectura do posto. As pessoas perceberam o conceito e usufruem dele, não só no interior, mas também no exterior, na esplanada, que é um jardim.

RPS: Quando e como defines, em Arquitectura, o estado de ‘Dever Cumprido’?

JM: Vou dar um exemplo de algo que me aconteceu esta semana e creio que não há forma de o contar humildemente: um casal veio ter comigo porque compraram a sua primeira casa de família e querem muito transformá-la na sua verdadeira casa; e estão angustiados com a arquitectura do espaço, bem como os materiais que lhes foram propostos, que não são interessantes. Eu expliquei-lhes como trabalho e o quão importante é serem acima de tudo honestos na partilha de informações que vou solicitando durante a nossa primeira conversa, para que eu possa fazer a leitura correcta não só do que pretendem mas também para que entenda até onde posso ir em termos de orçamento. No final da explicação, assinaram o contrato. Eu agradeci a preferência dando-lhes as boas-vindas ao universo do meu Studio. A cliente comoveu-se! Acho que percebeu que a partir daquele momento eu não ia somente fazer um projecto, mas ia dedicar-me a ele e a eles de alma e coração.

Quando desenho para os clientes, nunca tenho grandes dúvidas que o dever vai ficar cumprido. Mas há sempre muito sentimento, especialmente quando acompanho o projecto até ao momento da colocação das peças no espaço e a casa está pronta a habitar. E ainda mais quando vejo a felicidade nos olhos da família, dos investidores ou dos promotores da obra. É como se tivesse nascido um filho.

RPS: Ou seja, não é quando o projecto está pronto, mas quando vês a felicidade estampada no rosto de quem te confiou o projecto e uma boa parte da sua vida…

JM: Exactamente.

RPS: O que é, para ti, um bom projecto de Arquitectura?

JM: É o projecto que cumpre as premissas que eu citei. Mas também há projectos menos personalizados, que são excelentes projectos de Arquitectura. Por exemplo, a Casa das Histórias (da Paula Rego, em Cascais): aquelas saídas e entradas de luz, são quadros vivos para além da obra dela. Um projecto menos bom, é aquele que não conta história absolutamente nenhuma. É construção, é metro quadrado, completamente desprovido do sentido táctil e de responsabilidade do que é criar um espaço. Não tem emoção, não tem novidade, são paredes e portas.

RPS: Portanto, também na Arquitectura o storytelling é fundamental?

JM: Sabes, quando lês um livro e, através dele, passas a conhecer bem um local onde nunca estiveste e as pessoas que nele habitam? Agora imagina entrares numa casa vazia e conseguires imaginar o contrário: as pessoas que lá vivem, mesmo sem as conheceres. A construção de um espaço, são as palavras escritas dum livro.

RPS: Também dás especial importância à luz…

JM: A luz faz a arquitectura do espaço. É engraçado, porque nós temos os dados todos para fazer bons projectos. Uma delas é super natural, que é a luz. E é um dos elementos vitais para nos sentirmos bem. A luz que recebemos durante a manhã ou quando estamos a cozinhar, ou até a luz da noite, que é igualmente importante. Eu não percebo como é que se encerram casas à noite. A relação entre o interior e o exterior durante as várias fases do dia, é extremamente importante, porque se olharmos com atenção, várias coisas acontecem em vários momentos. Ainda ontem vi da janela da minha casa uma gaivota pousada num telhado… Uma gaivota em Leiria! Se eu tivesse a janela fechada, teria perdido esta história. E há sempre histórias a acontecer nas janelas de uma casa: a folhagem das árvores, as variações no tempo e no espaço,… Logo, a luz é essencial numa casa: a da casa, a do exterior, a que entra em casa e a ‘luz’ das próprias pessoas – que é a mais importante.

RPS: A Ava Gardner ia gostar de ti, porque ela não vivia de dia, só saía de casa quando escurecia… Há algum arquitecto ou designer internacional, que seja uma inspiração para ti, pela sua visão?

JM: Sim. O Vincent Van Duysen será, certamente, um dos arquitectos que mais admiro. Acabou de fazer uma casa em Melides. Admiro-o exactamente pela interpretação que ele faz do espaço, através da relação humana, criando espaços para as pessoas. É Director Criativo de algumas marcas e também desenha mobiliário. A intemporalidade e a alma que ele empresta aos projectos, é transcendente. Exímio.

RPS: E em Portugal?

JM: O Paulo Lobo é um dos interioristas que tenho como referência. Inovou a noção de espaço em Portugal, ainda quando ninguém saía do País e ninguém de lá de fora entrava. Tem o sentido artístico na construção do espaço através da criação de instalações. Houve uma altura em que os arquitectos trabalhavam muito com os artistas e isso deixou de acontecer. E o Paulo Lobo faz isso extremamente bem: trabalha o espaço também pela matéria, com uma tridimensionalidade incrível.

RPS: Lamentas algo que seja recorrente na Arquitectura actual, ao nível dos processos, da visão,…?

JM: Sim. Acho que há muita falta de visão… Nós temos a obrigação de sermos visionários, não é? A Ilse Crawford diz que tem uma espécie de raio-x na visão. E nós temos mesmo que a ter! Sempre que abdicamos dessa visão raio-x, estaremos a negligenciar um dos fundamentos da Arquitectura, quer na leitura dos clientes, quer na leitura do lugar. Temos o dever de ser futuristas, visionários. Não podemos esquecer que estamos a intervir no território e num espaço que, pelo menos exteriormente, pertence a todos. Temos mesmo que fazer bem, porque a obra vai ficar e influenciar a vida de várias pessoas e também da paisagem. E essa falta de visão e percepção, quando acontece, é lamentável na Arquitectura.

RPS: O que mais prazer te dá, naquilo que fazes?

JM: Dar qualidade de vida às pessoas.

RPS: Nasceste e sempre viveste em Leiria. Implantaste também o teu negócio em Leiria por ser um mercado atractivo ou por comodidade?

JM: A minha vinda para Leiria começou por ser somente por comodidade, mas hoje em dia já acho que é mais que isso. Não tenho grande público em Leiria, é um facto, acabo por trabalhar para todo o país e fora dele. Acho que se o meu Studio estivesse em Lisboa ou no Porto ou numa capital europeia, teria uma projecção bastante maior, mas tenho aqui tudo o que preciso para criar: tenho calma, segurança, tenho a minha família, a proximidade com a empresa do meu marido, tenho o carpinteiro, o serralheiro e o pedreiro, pessoas e artesãos que eu tanto prezo e que são fundamentais na minha actividade. Toda essa rede é muito importante para mim, porque é quem me permite fazer o meu trabalho. E poder viver num sítio onde as distâncias são curtas e o tempo passa mais devagar, é uma grande vantagem.

RPS: E, pelo que sei, não deixas de ir a Lisboa com frequência, a um teatro ou a um concerto…

JM: Claro. A cultura é-me essencial, inspira e vou com frequência fundamentalmente a Lisboa, ao Porto ou mesmo lá fora.

RPS: Quem és tu, antes de seres arquitecta? Ou não é possível separar isso?

JM: Não é possível separar… Até os meus filhos sabem isso.

RPS: Ser filho de uma arquitecta é como ser filho de um fotógrafo? As férias passam sempre por alguns episódios engraçados…

JM: Uma vez disseram-me que só conseguiria descansar verdadeiramente se fosse para uma ilha deserta… Mas até na ilha deveria haver qualquer coisa que iria captar a minha atenção… Sinto muito isso, mas não pelo facto de ficar num hotel de 5 estrelas ou num hostel: tem a ver com a experiência. Para mim, tudo é experiência. Ontem, escrevi algo assim: ‘O tamanho do nosso olhar é infinito’. E quando percebemos isso, nós próprios nos tornamos grandes, porque o mundo é grande e é nosso. Mas depende sempre da forma como olhamos para ele. E como o cuidamos.

RPS: Há alguma diferença entre o método de trabalho que é academicamente considerado correcto e aquele que decorre da tua interpretação desse método e que acabou por ser o teu próprio método de trabalho?

JM: O facto de ter formação em Arquitectura, deu-me ferramentas e permite-me olhar para o espaço da forma que olho. Mas a abordagem que eu faço ao utilizador e a leitura que faço dele, é algo muito meu, mas que poderia ser mostrada e treinada com os alunos. Certamente que iríamos assistir ao aparecimento de uma outra Arquitectura.

RPS: Em que medida?

JM: Porque não há nenhum aluno que saia da faculdade, que inicialmente não seja o reflexo dos cânones da Arquitectura,… E isto não é Arquitectura: isto é seguir uma corrente de Arquitectura. Devíamos mostrar muito mais a emoção que existe na Arquitectura, do ponto-de-vista do utilizador. Dessa fusão entre o conceptual e o emocional, com certeza teríamos uma Arquitectura mais rica, vernacular. Pois teríamos que explorar muito mais a matéria, os processos construtivos… A matéria é algo muito importante, porque respira por si própria.

RPS: O facto de um designer de moda, como o Ralph Lauren, ter tido tanto êxito a desenhar peças para casa, corrobora aquilo que dizes sobre a Arquitectura começar essencialmente pelo bem-estar?

JM: Parecendo que não tem nada a ver, eu compararia o Ralph Lauren com o que a Ilse Crawford desenha: é muito aspiracional. Se eu me identifico com o Ralph Lauren e com a roupa dele, eu vou querer adquirir também as peças dele para casa. Se a Ilse desenhou uma colecção para o IKEA com a qual eu consigo decorar uma sala, eu vou querer adquirir as peças porque admiro a forma dela ver e viver o design. Todos precisamos de inspiração.

RPS: O que nunca deixa de te fazer sorrir e de te entristecer?

JM: Nunca deixa de me entristecer a falta de cultura, de formação, de educação e de motivação para aprender mais. Acho que o querer aprender é a condição essencial para nos tornarmos sempre melhores do que somos. O que me alegra é ver a sensibilidade dos clientes, a humildade e a transparência, quando se entregam, porque só assim eu poderei fazer um bom projecto. Sinto uma felicidade imensa nessa entrega e troca de informação. A cliente de que falei há pouco, contou-me a história do anel que estava a usar, que lhe foi oferecido pelo marido, e que tinha uma forma bastante fora do comum. E confidenciou-me que um dia que tivesse uma casa, gostaria de ter um elemento que representasse essa mesma forma. É um dado pessoal e que grande parte dos profissionais consideraria banal, mas imagina o que é teres em casa uma representação de uma história que tem tanta simbologia para quem lá vive… Lembro-me que há uns anos fiz um projecto de reabilitação de uma casa em Toulouse (França)… O casal já lá morava há 30 anos e decidiram remodelar a casa, dado que os filhos já eram adultos e agora estavam noutra fase: tinham netos, queriam muito ter os pais por perto. No final da obra, no espaço de duas semanas, a cliente perdeu a mãe e o cliente perdeu o pai. E eu pensei ‘Que azar, a casa foi pensada para a família e está extraordinária, e a remodelação vai ficar para sempre associada a um momento tão triste. Aconteceu o inesperado: desafiaram-me a criar uma obra de arte para colocar numa parede enorme da sala, para que tivessem algo positivo associado a um momento tão marcante em memória dos entes queridos. Achei extraordinário. E criei uma instalação, formada por um painel enorme, lacado a branco, onde instalei 136 pontos de fibra óptica, em representação do percurso dos pais até ascenderem ao ‘céu’. Ainda hoje adoram aquela peça…


RPS: Acreditas que a pandemia que estamos a viver actualmente, vai alterar o curso e as prioridades da Arquitectura, na óptica do utilizador e do próprio arquitecto?

JM: Se não mudar, é de uma tremenda irresponsabilidade. Penso que todos nós tivemos oportunidade de confirmar o quão as casas são importantes nas nossas vidas, neste período de confinamento. Já sinto isso: parece que os clientes de repente despertaram para a casa, porque tiveram que viver uma nova vida e aplicar novas funcionalidades à casa de sempre. Até há pouco tempo, a casa era quase só para jantar e dormir. E, não tanto a pandemia e os seus vários efeitos directos e colaterais, mas esta quarentena foi muito boa, a bastantes níveis, exactamente por causa dessa consciência da nossa relação com a casa. Se o utilizador ganhou essa consciência, o que seria se o arquitecto ou o designer não a ganhasse também?

RPS: O próprio arquitecto, actualmente, também já não precisa de um atelier para trabalhar, a não ser para guardar aquelas peças que gosta e para receber clientes…

JM: Sim. E creio que será o futuro. Já em 2018 vi uma instalação em Milão que transmitia exactamente este aspecto: era uma casa muito táctil, a todos os níveis. O mobiliário era muito confortável, porque permitia estar a trabalhar numa mesa, ou num sofá; com o vestuário como prolongamento das matérias e das texturas – o que dava uma grande sensação de conforto. Mas sempre muito organizado, porque a organização também traz qualidade de vida. E uma presença forte do elemento Natureza. Ou seja, a planta da casa, como a conhecemos, está desactualizada. Vamos ter que criar outro tipo de espaços que irão corresponder às necessidades actuais, que já são muito mais do que a mesa de jantar com 8 cadeiras, o sofá com a chaise longue, etc… Vão ter que ser criados espaços a pensar nos filhos, em nós e, ao mesmo tempo, para podermos estar apresentáveis caso tenhamos  uma comunicação de trabalho com o exterior; ou uma aula com o coach ou um personal trainer, sem inviabilizar a vida familiar.

RPS: Criaste um hashtag durante esta pandemia…

JM: Sim, o #neverwalkalone. No primeiro dia após ser decretado o estado de emergência, confesso que fiquei em pânico, mas depois, ao fim de uma semana, percebi que estávamos numa fase de reflexão importante, ideal para nos reinventarmos em comunidade, porque estávamos todos a viver aquele momento, por todo o mundo. E tomei consciência que, se nos organizarmos e ajudarmos em comunidade, estaremos muito menos dependentes de mercados longínquos e prontos para ajudar a nossa economia. Se fizermos a nossa economia circular, vamos ser muito mais exigentes, as empresas muito mais exigentes e daqui a cinco anos vamos olhar para um Portugal muito diferente. Por exemplo, ao nível do Design, nós já fabricamos lá para fora. Mas e se começarmos a consumir as nossas peças, não vamos fazer com que os artesãos sobrevivam e que apareçam outro tipo de peças? E, por isso, achei que o Joana Marcelino Studio, que tem como bandeira trazer o bem-estar para as pessoas, teria algo a dizer neste momento, e comecei a lançar casos práticos para que as pessoas entendessem como é que a Arquitectura pode influenciar a vida e, mais que isso, ter bons resultados, em projectos residenciais, mas também nos comerciais, no sentido de antecipar e dar uma visão diferente às pessoas, do que eu acho que pode ser o futuro; e tentar incitá-las a não caminharem sozinhas. Tenho esta cultura permanente de fazer as coisas para elas resultarem e perdurarem no tempo. Não me interessa fazer um restaurante que é somente uma referência arquitectónica, se passado um ano ele fechar por falta de qualidade ou de clientes.

RPS: O que gostarias de perguntar às pessoas, em termos profissionais, e nunca perguntaste?

JM: Se conseguem sentir a minha verdade?

RPS: Se te quisessem resumir numa frase, como profissional, qual seria a melhor frase?

JM: A arquitecta das (boas) emoções.

RPS: Estás casada com um pessoa que transforma e comercializa pedra. Sendo tu arquitecta, foi um casamento por amor ou por conveniência?

JM: (risos) A minha história com o Pedro é muito antiga. O Pedro foi o meu primeiro namorado, quando eu tinha 12 anos. É o pai dos nossos 3 filhos e o grande amor da minha vida. As nossas vidas deram muitas voltas desde o fim do nosso namoro, mas, curiosamente, foi quando, mais tarde, passados 14 anos, forneceu pedra para uma obra que projectei, que a parte mais bonita da nossa vida começou. Nunca mais nos largamos e somos pais de 3 crianças maravilhosas.


Fotografias e Entrevista: Ricardo Pereira da Silva [RAWPHØTOLOGY]

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