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Dezembro 5, 2017
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Nem que a vida nos separe.

 

De que é feita a expressividade? Que tempo ou distância cósmica vai da sensação de conforto ao estado de naturalidade? Onde e quando nasce verdadeiramente a intimidade e a cumplicidade? Onde fica o ponto zero a partir do qual tudo começa, como se fosse a nascente de um ribeiro que nos traz tudo isso no caudal e desagua na mais simples e bela das fotografias? 

Depois de tantos meses e tantas pessoas conhecidas e fotografadas com inesquecível cumplicidade, naturalidade, intimidade e expressividade, o fotógrafo que exige conhecer e fotografar olhos-nos-olhos sob as leis daquilo a que chamou RAWPHØTOLOGY, calçou as botas da curiosidade e caminhou, subindo, em direcção à nascente desse ribeiro imaginário. Quis passar os dedos sobre as pedras através das quais a água-mãe vê os primeiros raios de sol. Quis sentir-lhe a frescura e ver o seu berço através da transparência. Quis ouvir os seus estrépitos de primeiro contacto com a terra húmida. Uma vez ali, na presença da matéria-prima que não se cansa de procurar através da fotografia, quis saborear e beber essas gotas de cristal. E uma vez ali, despiu-se do manto da sabedoria adquirida e vestiu-se com a nudez da curiosidade e da humildade. Não ousou deduzir. Olhou. Observou. Sentiu. Perguntou-se, antes de se concentrar em provocações ou desdobrar em perguntas, o que o levou da fonte até à foz, guiado pelas margens do seu principal objectivo: conhecer, para tentar fotografar o que descobriu jamais poder ser contado por palavras.

Perguntou, somente para sentir e não tanto por acreditar que algum dia entenderá por palavras o verdadeiro significado da expressão ‘Até que a morte nos separe’. Essa expressão que teve a oportunidade de iluminar e sombrear através da sua lente. Ousou desafiar, confiando que podia provocar novas formas de percepção e mesmo emoções, entre duas pessoas que se olham e sentem diariamente, mesmo de olhos fechados.

Nasceram em Porto Rico há 25 anos, através duma cesariana. Uma delas viu a luz do Mundo uns minutos antes, o que a torna tecnicamente mais velha, mas nem por isso mais líder. Foi modelo fotográfico, formou-se em Design Gráfico e abriu recentemente a sua agência de Gestão de Marca em Nova Iorque. Sobre a outra não há nada a acrescentar. É tudo, mas mesmo tudo igual.

Esta era, por si só, uma configuração evidentemente desafiante para um fotógrafo que gosta mais de fotografar pessoas do que da Fotografia em si. Foram 3 dias – dos muitos que estas irmãs, amigas inseparáveis e sócias dedicam a viajar por ano – de encontros sucessivos, de cumplicidade e de conversas perdidas no tempo e encontradas pela emoção, como se nos perdêssemos num jardim labiríntico e acabássemos sempre por nos encontrar no banco de pedra, ao fundo, sob a mesma japoneira, para voltarmos ao que mais interessava – sabendo que tudo era interessante.

O resultado parecia evidente: seriam algumas fotografias, acompanhadas de afirmações poéticas sobre parecenças e diferenças comuns entre irmãos gémeos, como quem joga ao ‘Descubra as Diferenças’ num passatempo de jornal. Depois, tudo se iluminou. E as afirmações passaram a mostrar-se mais evidentes nas fotografias do que pelas palavras, através de olhares sinceros e disponíveis, mesmo quando os olhos se fecharam, se taparam com um abraço ou se derreteram em gotas de água salgada com ténue odor a sangue. Entre flashes destemidos e frios, sorrisos quentes e tranquilos e essas mesmas lágrimas, uma pedra desagregou-se dessa rocha maciça a que chamam Gémeos, na forma de uma frase que resume a magia do sentimento que pulsa por detrás da pele de cada imagem: ‘E pensar que um dia fomos uma coisa só’.

Olhá-las, nos primeiros minutos, é olhar duas mulheres. Parecem-se e movem-se como dois planetas na mesma ínfima galáxia, com a mesma cor, a mesma textura, o mesmo diâmetro e sempre próximos um do outro. Sempre. Depois, o tempo e a cumplicidade tomam sempre conta de tudo. A intimidade faz-se ouvir através da respiração cada vez mais lenta e palavras cada vez mais espaçadas ao ritmo de Für Alina, próprio de quem passou a ser dono do tempo e pensa que já se habituou a reconhecer algumas diferenças físicas. Mas, de repente, o eclipse dá-se. Voltam a ser um só planeta diante dos meus olhos. Querem ser uma e não sabem ser duas. Como se acabassem de marcar um golo na minha percepção e fossem colocar a bola ao centro, com um orgulho soberbo, que nem por isso deixa de ser comovente aos olhos do vencido. O lábio que parecia ser (e é) ligeiramente mais vincado nos cantos da boca, que o da irmã, faz-me acreditar que aquela com quem estou a conversar é afinal a que tinha acabado de sair da sala. A força de expressões partilhadas durante anos, ganha novamente em semelhança à ténue diferença física. Sorrio. Sinto-me em casa. Porque para mim, ‘casa’ em fotografia, é onde a Expressividade – muito mais que o físico – me sabe a família.

O que as torna únicas e unas é, simplesmente, aquilo que as une e as faz dançar um tango eterno, como se se movessem sempre dentro de um abraço, desde que a Natureza decidiu desisti-las da forma de um espermatozóide e assumi-las em forma de dois originais de Mulher que são originais. Juntas são uma. Separadas, são incompletas e um estado de ansiedade e amputação permanente. O que sobeja desse músculo afinado e único a que vulgarmente apelidamos de célula, são detalhes ténues que a Natureza ofereceu aos homens para que estes não se tentem na ilegalidade da poligamia ou não tenham que dar razão a quem diz que é possível um coração apaixonar-se por duas pessoas ao mesmo tempo.

São e serão para sempre diferenças tão finas e imperceptíveis, como o Ré do António Zambujo, quando desfia essa canção cujo título podia dar nome à razão deste projecto: Foi Deus.

Ricardo Pereira da Silva

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