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Fevereiro 4, 2018
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Quando Incondicional sabe a pouco.

Não há prazer maior para um fotógrafo que gosta, sobretudo, de contar histórias através da fotografia, do que ter a liberdade e a oportunidade artística de seguir o seu instinto, sem filtros e sem cercas entre aquilo que sente e a linha do seu horizonte. E depois, quando revela o que viu, sentir-se afrontado pela grandiosidade da beleza da história que lhe concederam, num acto de generosidade emocional, que lhe fica para a vida; e realizar, realizando-se, que o que essas imagens mostram, jamais poderá ser contado por palavras, porque o maior dos poetas pode facilmente tocar-nos com aquilo que sentiu daquilo que viu, mas jamais conseguirá mostrar com tanta pureza, imparcialidade e impiedade, aquilo que eu vi e mostro, sem qualquer alteração ou apropriação em ponto-de-vista; com alma de poeta e responsabilidade de jornalista.

Todos nós, os que temos filhos, já sentimos o arrebate do amor no peito; sentimos o fel do medo na boca e o sal do orgulho nos olhos, mas quando nos toca a definir o que é o amor por um filho, não conseguimos mais do balbuciar um ‘não tenho palavras para o descrever’ ou projectar a palavra ‘incondicional’.

Incondicional, é, com toda a legitimidade, um atalho fácil e de tamanho tamanho, que nos parece resolver a questão. Mas onde ficam aqueles medos que vivemos e imaginamos, num acto de meia precaução e meio masoquismo, quando amamos um filho? Onde fica o arrepio que nos percorre o corpo, quando ganhamos aquele abraço de pequenos braços, que não pedimos, e que veio num acto de puro afecto? Onde fica o virar da cabeça, para o vermos uma vez mais quando o deixamos na escola e sorrirmos com aquela forma de caminhar que já é tão sua? Onde fica o pescoço levantado, os olhos esbugalhados e um coração a bater nesses mesmos olhos, quando chegamos à mesma escola para o ir buscar e não o encontramos, entre tantas crianças que ganham o estatuto de figurantes, no filme com o nosso actor preferido? Onde fica a mão que cobre o ombro, como se uma frente polar e todo o frio do mundo entrasse por aquela falha que detectamos na função do cobertor? Onde fica toda a felicidade do mundo, por aquela última garfada com a qual já não contávamos, e que parece que, essa sim, o vai alimentar como deve ser, mesmo que já tenho comido quase tudo? Onde ficam os cheiros do amor, esses que nos amarfanham o estômago, como o do hálito matinal, o do pescoço macio ou o dos dedos dos pés, quando o cansaço era tanto que decidimos deixar o duche (esse usurpador dos melhores cheiros do mundo) para o dia seguinte? Onde fica o coração do tamanho duma tâmara, quando entramos com ele numa urgência hospitalar, a meio da noite, embrulhado em todas os cobertores que havia lá em casa? Onde fica o sorriso parvo e as lágrimas que não seguramos, quando o vemos a dormir, depois de lhe encostar o ouvido ao nariz pela décima vez, para verificar se está a respirar? Onde fica o medo que nos seca a garganta, quando o imaginamos no mundo sem nós, sem o nosso mimo e sem os nossos referenciais? Caberá em ‘Incondicional’ aquele abraço tipo macaco, em que os braços nos sufocam no pescoço e as pernas nos apertam as ancas e parece que o mundo começa e acaba ali? Incondicional é uma palavra enorme, mas surge-me muda, ignorante e insensível, quando lhe toca descrever um amor por um filho. Especialmente pelo nosso.

Felizmente, tenho uma câmara. Felizmente, escolhi fotografar pessoas: pessoas inteiras, com elas próprias e comigo. E onde me falta a tinta para escrever as emoções, sobra-me a luz, a sombra e o sentimento para saber quando estou em frente a uma imagem que um poeta jamais poderia descrever por palavras e que extravaza as fronteiras do ‘incondicional’.

Sorte a minha, ser fotógrafo. De Pessoas.

Ricardo Pereira da Silva

RAWPHØTO
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