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Novembro 21, 2018
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Laurinda Alves: Gostava que Deus soubesse que pode sempre contar comigo.

RAWSTØRIES são reflexões retiradas de sentimentos que me surgem durante sessões fotográficas. E são conversas de alma entre pessoas que gostam de pessoas e de ser pessoas. Sobre pessoas que vale a pena conhecer enquanto pessoas. Conversas espontâneas, íntimas sem ser indiscretas, sem guião e sem preocupações, mas todas elas conduzidas com o propósito de dar a conhecer o que interessa a quem as tem; e sempre com a curiosidade e a despreocupação que só a uma criança se poderia pedir.

Porque nas conversas como na vida, acredito que cada pessoa é única. E que por detrás de um nome, há sempre um ser humano e uma história que vale a pena conhecer.

E nada melhor que começarmos por conhecer o lado humano e algumas histórias que vivem por detrás do nome Laurinda Alves e daquilo que todos conhecemos desta incontornável jornalista.

Ricardo Pereira da Silva (RPS): Laurinda, consegue dizer-me, em poucas palavras, o que fez da vida?

Laurinda Alves (LA): O que faço da vida – prefiro dizê-lo no presente – é tentar, a cada dia, ser melhor e dar mais à vida.

RPS: E o que fez a vida de si?

LA: Não sei se fez de mim ou se fez comigo…  Fez uma pessoa mais consciente da sua missão, do seu papel e da sua vocação…

RPS: Mais alegre?

LA: …mais alegre, mais leve e mais tranquila. E mais feliz.

RPS: Como é que se consegue essa leveza?

LA: Dá imenso trabalho. Quantos mais anos passam, mais a vida pesa. É exactamente por essa razão que tento fazer coisas, estrategicamente, para tirar pesos. Consigo, por exemplo, fazer isso em retiros de silêncio duma semana, orientados por padres jesuítas; faço isso através da oração; faço isso no meu silêncio diário, que eu preciso para poder juntar o que anda disperso em mim, que às vezes está partido, fragmentado e às vezes magoado; e para que isto não se acumule, não seja um fardo e um lastro muito pesado.

RPS: O seu maior medo, alguma vez se tornou realidade?

LA: O meu maior medo estúpido, é o medo que tenho de osgas. E um dia caiu-me uma osga na cabeça. Acho que nós convocamos cosmicamente e comicamente qualquer coisa para nos tirar esse medo. E desde esse momento o meu maior pânico passou.

O maior medo, sem ser de coisas parvas, sempre foi o medo de não estar à altura de tudo o que recebi e recebo. Não saber estar à altura de ser um boa mãe, dum bom filho que recebi; ou de ser uma boa filha duns bons pais que me tiveram. Medo de não estar à altura dos bons amigos, mas também não estar à altura daquilo que de mau ou menos bom me acontece, no sentido de estar à altura de aprender com os meus fracassos, os meus erros ou a minhas provações.

RPS: Qual foi a maior coisa que recebeu?

LA: Acho que foi o dom da intuição e o dom da fé.

RPS: A fé vive naturalmente dentro de uma pessoa inteligente?

LA: Não diria numa pessoa inteligente, mas sim numa pessoa racional. Porque se for uma pessoa inteligente, seria muito estranho ligar a fé à inteligência ou à pouca inteligência; mas à racionalidade, ao excesso de racionalidade, em que todos tropeçamos, porque racionalmente tentamos explicar coisas que não se explicam. Portanto, se juntarmos racionalidade à fé, será difícil, porque há mais tropeços. Só que as pessoas muito racionais evoluem muito pela dúvida; fazem-se muitas perguntas. E essas muitas perguntas exigem maior abertura. E há pessoas que ficam muito na pergunta, na dúvida e na descrença… Mas há outras pessoas que, de dúvida em dúvida, de derrota em derrota,… até à conquista final. Quando uma pessoa ouve um Stephen Hawking falar sobre estar aberto à fé e à possibilidade de Deus, num homem ultra racional e científico, uma pessoa percebe…

RPS: Quando percebeu que já era adulta e não havia volta a dar?

LA: Percebi e fiquei bem chateada, quando estava nos escuteiros ou quando jogava basket e me começaram a dar imensas responsabilidades. Eu adorava ir para os escuteiros e fazer acampamentos e puseram-me como chefe dos Lobitos. E depois queria só jogar basket e alguém descobriu que eu tinha ascendente sobre os meus pares. E olhando para trás, a minha mãe diz que eu aos 4 anos podia tomar conta do meu irmão. Podia ficar sozinha com o meu irmão porque se fosse preciso ela ficaria descansada. Portanto eu percebo que às vezes esse excesso de responsabilidade cansou-me e fez-me mais adulta antes do tempo.

Eu aos 20 anos era madrasta de 2 enteados. E uma madrasta-mãe.

RPS: Se pudesse mudar algo no mundo, por onde começava?

LA: Se pudesse proibir alguma coisa no Mundo, proibia a comparação. As pessoas a compararem-se umas com as outras, compararem filhos, comparem coisas. A comparação é perversa; é depreciativa. E é uma armadilha, porque eu não me posso comparar com ninguém. E essa originalidade, essa singularidade, aquilo que viemos ao mundo fazer e que só nós podemos fazer da maneira como nós fazemos, às vezes fica muito distorcida nesta tendência comparativa. Portanto, proibia a comparação. Só permitia a comparação de nós connosco próprios, no antes e no agora. E aí sim, eu percebo qual é o meu caminho, a minha pegada, a minha evolução,… Mesmo nós, pais, comparamos muito: as notas dos filhos ou a performance dos filhos, e depois vamos ver e eles não são comparáveis.

E nós próprios comparamo-nos muito com outros. Proibia isso.

RPS: Sermos pais de filhos únicos dá-nos mais medo?

LA: Bem, eu tive a sorte de ser mãe de um filho que vale por muitos. É como se eu tivesse uma multidão em casa e acho que muitos pais de filhos únicos sentem o que eu sinto. Seja através dele próprio, daquilo que o habita; seja través dos amigos que trazem, dos primos, dos vizinhos,… Eu, por exemplo, tinha um carro de 7 lugares, só para levar o meu filho e os amigos, para as férias, para a praia, trazê-los e levá-los aqui em Lisboa. Eu era a mãe que ia levá-los e buscá-los nas saídas à noite, etc.

RPS: O que tem pena que o tempo tenha apagado?

LA: Sou uma pessoa muito do aqui e agora e do amanhã. Adoro as coisas que vivi mas, talvez por ser assim, não penso muito no que o tempo apagou. Mas se pensasse, teria pena que o tempo tenha apagado a voz das pessoas que eu amo e que estão no céu e que já não estão cá: do meu pai, dos meus avós, do meu afilhado, das pessoas que me fazem falta…

RPS: A voz física ou a voz enquanto conselho de vida?

LA: A voz. As gargalhadas, a proximidade, o que vem de caloroso na voz daqueles que nós amamos.

RPS: E mãos, há algumas em particular que lhe façam falta?

LA: Por acaso, sim. Fazem-me falta as mãos de todos de os que me puseram ao colo, literalmente. Das minhas avós, dos meus avôs, das pessoas que me põem a mão no ombro. Mas sobretudo – e é incrível que me faça essa pergunta – dou-me conta agora que me fazem imensa falta umas das mãos mais bonitas, dos dois pares de mãos que eu acho lindas, as da Sophia de Mello Breyner e as da minha mãe. São mãos de pessoas que mesmo aos 80 anos têm umas mãos esguias,  bonitas e muito elegantes, com gestos extraordinários e gestos absolutamente originais. E agora que me faz essa pergunta, lembro-me dos gestos das mãos da Sophia quando fumava, quando falava. Fazem-me falta. E um dia vão fazer-me muita falta as mãos da minha mãe, também.

RPS: Qual o preço mais alto que pagou pelo sucesso?

LA: Não sinto que tenha pago nenhum preço pelo sucesso. Não olho muito para mim pelo sucesso, mas talvez mais pelo reconhecimento, realização profissional ou pessoal. Nesse sentido, diria que talvez algumas horas de sono. Não consigo fechar as pastas do computador interior à noite e então tudo me tira o sono.

RPS: Se tivesse prestes a converter-se na melhor amiga de alguém, o que achava relevante que essa pessoa soubesse sobre si, desde logo?

LA: Que essa pessoa soubesse que adoro a autenticidade, que tento ser uma pessoa autêntica.  E adoro o entusiasmo. Entusiasmam-me as pessoas entusiastas. E isso é uma espécie de um combustível. Como carregar o telemóvel. E a mim, a minha bateria vem muito da autenticidade e do entusiasmo.

RPS: Se pudesse escolher, quem gostaria de convidar para jantar?

LA: Há imensas pessoas. Mas gostava… Há cantores, há vozes que eu gosto imenso. Gosto imenso da voz da Sade, do Seal. E se pudesse convidar os 2 para jantar, gostava. Ou então o Anish Kapoor, o artista plástico indiano. É uma pessoa que me fascina.

RPS: Qual a característica que acha que as pessoas guardam mais de si?

LA: Sensibilidade, no sentido de calçar os sapatos dos outros. E ouvir.

RPS: Acha que educar está mais relacionado com falar ou ouvir?

LA: Com dar o exemplo. Eu posso dizer o que eu quiser, posso até mandar publicar decretos, que não educo ninguém. Agora, o meu exemplo educa ou deseduca qualquer um.

RPS: O que é que os professores lhe diziam mais que uma vez e que ainda seria válido hoje em dia?

LA: Para não ser tão tímida. Eu era estupidamente tímida. Sofria imenso com a timidez. O que eles me diziam era para confiar mais em mim e confiar mais naquilo que eu trazia em mim. E custava-me imenso acreditar. Até porque eu era muito magrinha, muito alta e chamava-me Laurinda. E isso era muito duro. Toda a gente se quer chamar Maria, Teresa, Rita,…

RPS: De onde vem o nome Laurinda?

LA: Da minha avó. Quando eu for avó – agora sou avó emprestada. Tenho 12 netos emprestados, por casamento -, a avó Laurinda em todo o seu esplendor, o nome finalmente vai assentar em toda a sua linha e todo o seu potencial.

Mas foi um nome difícil par mim, durante 30 anos. Depois tornou-se uma marca. Mas antes de uma pessoa saber que o seu nome pode ser uma marca, antes disso uma pessoa sofre.

RPS: Lembra-se de algo que alguém lhe disse na vida e nunca mais esqueceu?

LA: A Sophia [de Mello Breyner] disse-me uma vez ‘Que parva que eu fui, pensar que aos 40 anos estava velha’. Mas há outra frase, também dela, que me acompanha, e que é ‘Sabemos mais do que percebemos’. E isto aplica-se muito hoje em dia, porque está tudo à distância dum clique, e nós sabemos tudo, mas não percebemos e não temos tempo para processar e interiorizar. E uma pessoa, como ela, ter dito isto, ainda muito antes desta geração…

RPS: A Sophia é uma daquelas pessoas que tenho pena de não ter podido conhecer pessoalmente. Tudo o que conheço, foi graças aos escritos do Miguel [Sousa Tavares]…

LA: Era uma pessoa notável. A riqueza dela está na prosa e na poesia, mas a pessoa dela era inesquecível. Nunca falo dela, por acaso. E agora, aqui, falei 3 vezes. Mas também é uma homenagem…

RPS: Quem gostaria que nunca tivesse dúvidas que pode contar consigo?

LA: Deus. Gostava que Deus soubesse que pode sempre contar comigo. Que eu estou sempre pronta e disponível para ajudar. Adorava que Ele soubesse isso e que estivéssemos sempre nessa sintonia.


Fotografia: Ricardo Pereira da Silva [RAWPHØTOLOGY]
 
Entrevista e Sessão Fotográfica produzidas no âmbito do projecto editorial 60NTA 60MIGO, que assinala o 60º Aniversário do Colégio O Nosso Jardim, em Lisboa.
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