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Março 11, 2019
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Mário Mendanha: Sou obcecado pelos detalhes.

 

Para um fotógrafo que é avesso a alterar o que quer que seja em alguém que fotografou (ou seja, recorrendo a ferramentas de edição fotográfica), o interesse e as conversas com quem pode alterar algo numa pessoa, antes dela ser fotografada, são sempre longas e construtivas. Entre as pessoas e profissionais que o podem fazer, contam-se os make-up artists, os psicólogos e os cirurgiões plásticos.

Já não é a primeira vez que alguém me pergunta, após uma sessão fotográfica, se posso retirar ‘aquela ruga’? A minha resposta é sempre a mesma: ‘As rugas, tal como as outras marcas que o nosso corpo evidencia, contam a nossa história. Não me atrevo a apagar uma parte tão importante de alguém. Mas se, mesmo assim, quiser fazê-lo, conheço quem o faça com a maior competência’.

Já depois de ter dito esta frase algumas vezes, cruzei-me com Mário Mendanha como que por acaso. Ao fim de alguns minutos de conversa e mesmo que a sua humildade me tivesse dificultado a tarefa, percebi que estava na presença de alguém que me iria ajudar a continuar a prescindir dos pincéis do Photoshop para retirar ‘aquela ruga’. Mais que isso, percebi que estava na presença de um perfeccionista da Cirurgia, sem, com isso, se tornar num tecnicista sem visão e sentir artísticos; de alguém a quem eu gostaria de perguntar várias coisas sobre uma profissão que se cruza tantas vezes com a minha e que me enche de curiosidades. De alguém com quem tenho, afinal, tantas afinidades, pois embora utilizemos cirurgicamente instrumentos diferentes, ambos temos a responsabilidade de saber que mudamos vidas, que uma cirurgia e uma sessão fotográfica não são só o acto a acontecer, mas que em ambas há a premência de uma preparação meticulosa; a técnica a dar as mãos à arte no acto encetado por ambos; o recobro após um momento importante para a vida de quem está nas nossas mãos; e o pós-operatório que inclui o primeiro contacto – seja ao espelho ou em papel fotográfico – com o rosto do amanhã que cada um quer para si – ou não estivesse incluido, naquilo que fazemos e nas pessoas que se entregam a nós por momentos,  uma vontade de mudar algo para melhor.

Uma cirurgia tal como uma sessão fotográfica ‘sem filtro’ envolvem uma grande coragem por parte de quem se sujeita a elas. Se no meu caso não há qualquer anestesia, no caso de Mário Mendanha é fácil perceber, ao ouvi-lo a ele ou a um dos seus pacientes, porque é que confiam nele de olhos fechados.

 

Ricardo Pereira da Silva [RAWPHØTOLOGY]: Lembras-te de qual era o teu maior medo, na infância?

Mário Mendanha: Como todas as crianças, tinha terrores noturnos. Tinha um sonho que me perseguia, de cães diabólicos e coisas do género. O ‘fantástico’ sempre esteve presente na minha infância, tanto nos pesadelos como na própria ideologia. Gostava de viver num mundo criado por mim, nas pequenas coisas.

RPS: Eram medos que se relacionavam sobretudo com criaturas?

MM: Sim. Por exemplo, lembro-me de mim, muito miúdo, entre os 6 e os 10 anos, a gostar de usar suspensórios e mala para ir para a escola, portanto tinha uma forma particular de ser, que até ia contra os conselhos dos meus pais, que queriam a minha normalidade. E isso, depois, dentro da minha vivência habitual, estava presente e mesmo nos meus sonhos, sob a forma de criaturas fantásticas e monstros diabólicos.

RPS: Relativamente ao futuro, tinhas algum medo em particular?

MM: Não. Tinha uma confiança muito grande. Quando era criança, entusiasmavam-me mais as ciências básicas. Gostava da Física, da Matemática; depois, mais tarde, da Astronomia. A parte dos Dinossauros também me cativou, como à maioria das crianças. Mas gostava muito dessa formação científica; e via o meu futuro muito nessa área. Curiosamente, tinha confiança que iria fazer aquilo que mais prazer me desse.

RPS: E algum dos medos que tinhas na tua infância, se mantém até hoje?

MM: Não. Agora tenho outro tipo de medos…

RPS: Tais como?

MM: Com a maturidade vem o conceito de realidade e há a desconstrução destes mitos. E a realidade não é nem mais nem menos encantadora do que as fantasias. É preciso é vê-la com os olhos certos. Os meus receios agora prendem-se muito com a minha imagem como pai, perante o meu filho; como marido, como companheiro.

RPS: E sonhos, tinhas algum na tua infância, um grande sonho?

MM: Sim, eu tinha um grande sonho, uma fantasia, mas depois a realidade coloca essas coisas sob perspectiva… Tinha aquela fantasia de encontrar a alma gémea, e a fantasia de ter filhos; e de, dentro da ciência, ter uma vida artística. Por exemplo, adorava Astronomia, mas via-me num Observatório, nos Andes, isolado… Tinhas estas construções e estas perspectivas.

RPS: Tenho uma ideia sobre ti de alguém que gosta de isolamento. Estou certo?

MM: Eu gosto muito da parte social, mas mais restrita. De bons amigos, de pessoas com quem há partilha de ideias. Mas sou de facto uma pessoa reservada, que se sente perfeitamente à vontade com muito poucas pessoas. A minha companheira é a única pessoa que encontrei até hoje com quem tenho esta ligação quase intelectual e com quem me sinto perfeitamente à vontade; e é muito importante também encontrar alguém com quem podemos estar em silêncio, sem haver nenhum tipo de constrangimentos.

RPS: Mudavas algo na forma como foste educado?

MM: É curioso questionares isso, porque tive uma conversa recentemente com os meus pais, porque há sempre aquela preocupação que os pais têm sobre se educaram bem os filhos… Eu acho que eles educaram mal os filhos, como eu provavelmente estou a educar mal o meu filho, mas os pais nunca têm essa noção. Creio é que os pais educam para um mundo que não existe. Mas, curiosamente e duma forma improvável, deram-me as melhores ferramentas para eu ser o homem que sou hoje em dia. Ou seja, eles deram-me as pedras basilares, os princípios, aquilo que realmente é importante; o facto de não termos preço, de não estarmos à venda… Tudo isto passou ao lado de tudo aquilo que, hoje em dia, se calhar é mais prático e mais confortável para viver, que é uma vivência política, de cedências, de planeamento relativamente aos fins a que queremos chegar e que justificam todos e quaisquer meios. Os meus pais não me prepararam para isso. Eu tive, à custa disso, aprendizagens que me foram penosas, mas no final, o caminho correu muito bem e onde estou hoje deve-se em grande parte à educação que tive.

RPS: Se um dia pudesses acordar com uma nova competência ou dom, como que por magia, qual seria?

MM: Há 2 competências nos quais eu sou analfabeto: uma delas é a música: eu não sei ler pautas e a Música é uma das minhas grandes paixões. A música clássica acompanhou-me desde que me lembro, mas de facto não sei ler uma pauta, nem tocar um piano; a outra tem a ver com a escultura e a pintura, em termos técnicos. Uma coisa é pintar ou ter momentos em que se faz algumas esculturas, mas de uma forma intuitiva; outra coisa é ter técnica, preparação e ter método.

RPS: Pintas intuitivamente?

MM: Já pintei mais. Até me dedicar à Cirurgia Plástica, pintava muito. É curioso que os momentos de maior frustração e insatisfação pessoal, muitas vezes são os momentos mais criativos. Pintei muito em determinadas alturas da vida e hoje pinto pouco, o que pode ser bom sinal. É sinal que estou em paz comigo próprio.

RPS: E se calhar porque, de alguma forma, realizas uma parte importante do teu lado artístico através da tua profissão…

MM: Sim, muito. A parte estética acompanha-me em tudo o que faço na vida. Tenho a sorte da minha área profissional ser baseada nesse princípio, o que me é fundamental. Ou seja, no princípio da Beleza. Eu retiro muito prazer daquilo que faço e se calhar por isso não sinto tanta falta das outras artes.

RPS: Se tivesses 1 minuto para resumir a tua vida a alguém, como pontuarias a tua história?

MM: Eu nasci velho e vivi a minha infância com esse estigma auto-imposto. Afastei-me de tudo o que normalmente se encontra na infância e na juventude, em detrimento de ideais que sempre me acompanharam. Não sei onde os fui buscar; creio que nasceram comigo… A parte profissional não foi particularmente difícil para mim. Sempre gostei de estudar, sempre gostei de ler, não me custou rigorosamente nada.

RPS: Onde nasceste?

MM: Nasci na Sé, no Porto. E cresci no Porto e orgulhosamente vivo no Porto. Só porque, objectivamente e depois de viver noutros locais e de visitar outras partes do mundo, para a minha personalidade eu acho que o Porto reúne um conjunto de características que me fazem sentir muito feliz e privilegiado por viver aqui.

RPS: Tem um equilíbrio único. Nada como viajarmos ou vivermos noutro cidade, para percebermos isso.

MM: Sem dúvida.

RPS: Qual é a principal razão pela qual o teu filho se vai poder orgulhar de ti?

MM: Todas as pessoas nascem com características positivas e negativas, dotadas para isto ou para aquilo; nenhum de nós é particularmente especial, acho que todos o somos. O meu filho poder-se-á orgulhar de qualidades que eu possa ter e com as quais nasci. Mas o que de facto pode marcar mais o meu valor, se tiver algum, é a forma como aprendi a lidar com as contrariedades da vida e como me obriguei a rever as prioridades: como a partir de uma dada altura percebi quais são as prioridades da vida e como me bato por elas diariamente.

RPS: E quais são?

MM: A família, sem qualquer dúvida. A paternidade é um privilégio que não tem descrição possível por palavras. O seres fiel a ti próprio, na medida em que consegues ser fiel aos outros e especialmente àqueles que amas. Todos nós somos convidados diariamente a pensar e a viver de forma diferente, mas é a nossa maturidade e o nosso fio de prumo que nos define. Portanto, seja ele qual for, se nos mantivermos fiéis a ele, podemos ter essa paz de espírito.

RPS: Quando descobriste a tua vocação e quando decidiste a tua profissão?

MM: O percurso foi algo errático… Como disse, a ciência e a beleza sempre foram muito presentes na minha vida. O admiração pelo corpo feminino, enquanto ícone de beleza e elegância, também foi algo muito presente em mim. E acho que tudo isto se conjugou, no final, para eu que viesse a fazer o que faço, hoje em dia. Embora tenha havido alturas em que uma ou outra parte deste tripé prevaleceu. Inicialmente, a parte cientifica era muito forte. Eu gostava fundamentalmente das grandes questões, gostava da Física Teórica, gostava da Matemática e concentrava-me muito nestas áreas. Nessa altura, o meu sonho não era, de todo, ser cirurgião plástico. Era ser físico teórico, em Cambridge; e tentei essa carreira e fiquei desiludido quando não obtive o acordo da minha família em deixar-me ir, com 18 anos. E fiquei igualmente desiludido por ter ficado em Portugal e entrado na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Achava que um dos meus grandes defeitos era, de facto, ser científico e não ter jeito nenhum com as pessoas. A revelação veio no 4º ano, quando entramos na parte clínica, em que o contacto com o paciente despertou um bem-estar e um à-vontade, que desconhecia em mim próprio. Dentro da área da Medicina, a única especialidade que preenchia os dois aspectos essenciais e que me eram queridos, era a Cirurgia Plástica, porque lidava com Beleza e porque a parte cirúrgica tem uma característica muito interessante: nós vemos o resultado das nossas acções, no momento em que as estamos a fazer. Portanto, não é o medicamento ou processo químico que eventualmente dá aquele resultado; é a cirurgia e as nossas mãos que estão a construir e a resolver aquele problema. Portanto, sempre soube que dentro da Medicina, seria a área cirúrgica; e a Cirurgia Plástica foi a única escolha válida para mim.

RPS: Qual é a diferença entre Cirurgia Estética e Cirurgia Plástica?

MM: A Cirurgia Estética, a Cirurgia Plástica e a Cirurgia Reconstrutiva, a meu ver, são sinónimos. Não há diferenças substanciais. O Ivo Pitanguy, escreveu uma vez que ‘A Cirurgia Plástica é Reconstrutiva e Estética. E as duas não podem existir de forma dissociada. É exactamente esse o meu pensamento: na Cirurgia Plástica, quando estamos a operar, temos ao mesmo tempo preocupações estéticas, como temos preocupações reconstrutivas. Reconstrutivas no sentido de devolver a função e preocupações estéticas relativamente aos princípios de beleza e de harmonia que são seguidos. E tudo isso é a Cirurgia Plástica.

RPS: Quando percebeste que podias ser diferente dos cirurgiões que já estavam no mercado, quando entraste no mesmo?

MM: A ideia de mercado faz-me alguma confusão, mas entendo: de facto, ser cirurgião plástico pressupõe anos e anos de formação. Pressupõe teres passado um curso de Medicina, em que a sociedade, de alguma forma, te vê como diferente, porque apesar do meu caminho não ter sido exemplar nesse tópico, a verdade é que os alunos de Medicina são normalmente pessoas muito dedicadas e que não têm outro tipo de vivências na vida, para poderem entrar num curso que é extremamente exigente. Depois, dentro do curso em si, continuam com este périplo e com um pendor muito forte na competitividade; e eu efectivamente nunca senti isso. Portanto, de alguma forma, acho que fui sempre diferente nesse aspecto. É muito importante as pessoas que estão por trás de ti. Durante a especialidade, tive o Prof. Pedro Ferreira, que foi o meu orientador de especialidade e que foi uma figura particularmente importante durante os 6 anos de especialidade; senti que aprendia com ele, mas trabalhava com ele. Ele deu-me aquilo que de mais precioso um orientador pode dar a um interno, que é a capacidade e a possibilidade de operar e de assumir responsabilidades. Portanto, nunca consegues exprimir a completa gratidão a quem te faz isso durante 6 anos.

Dentro do mercado, tal como referiste, de facto a Cirurgia Plástica com preocupação mais estética e menos reconstrutiva – quando falamos desta mesma balança – que não deixa de ser o mesmo prato – tem uma expressão muito particular. A verdade é que Portugal é um país muito próprio, relativamente a essas questões de competitividade. É um país muito agressivo, a esse nível. E eu aí senti-me claramente diferente, no sentido em que sempre foi mais importante para mim o componente profissional e clínico, do que o componente comercial, do qual eu de alguma forma – e desculpa-me a expressão – sinto nojo, porque dinheiro é dinheiro e não tem outro valor, para além do que lhe queres dar. E colocar isto perante o tipo de trabalho que fazemos, a importância e a responsabilidade que tem, eu acho que é de facto juntar duas coisas que nem sequer devem estar na mesma conversa, daí a minha aversão à palavra mercado. Mas sim, talvez a maior diferença estivesse aí, na forma menos comercial como encaro estes assuntos.

RPS: Há uma música do Pedro Abrunhosa que diz ‘Vamos fazer o que ainda não foi feito’. Podia ser um hino teu?

MM: Eu não tento fazer coisas diferentes. A minha luta não é pela diferença, de todo. A minha luta é pelo resultado. E eu sinto confiança no que faço atendendo a todos estes anos de empenho, que me dão competências e experiência, e que me permitem conhecer bem o corpo humano e conhecer os tecidos e conhecer os limites daquilo que faço. A Cirurgia Plástica, na sua base, tem este processo criativo, que faz parte da sua definição. A Cirurgia Plástica serve para resolver problemas – é umas das suas definições mais interessantes (que não é minha) – e os problemas nunca são sempre os mesmos; e têm nuances. Eu creio que todo o cirurgião plástico tem em si essa questão: não é querer fazer algo de novo; é ter de fazer algo de novo porque os problemas e os desafios são novos…

RPS: Nem que sejam problemas de auto-estima, às vezes…

MM: Os problemas nunca são tão simples quanto isso. Havia um cirurgião plástico inglês, nos primórdios da Cirurgia Plástica – na altura da 2ª Guerra Mundial, nessa altura com um pendor muito reconstrutivo, de resolução de traumatismos de guerra – que dizia que ‘a Natureza amputava o órgão e a cirurgia plástica tinha o dever de o restaurar’, mas, ao mesmo tempo, ele dizia que ‘a cirurgia plástica na vertente estética, iria ser reconhecida, no futuro’ – e ainda não foi, e já pesaram mais de 50 anos – ‘como o ramo da cirurgia, que era capaz de devolver a paz de espírito e o bem-estar aos que se sentiam de alguma forma traídos pela Natureza’. Repara nesta nuance de conceitos: já não temos a Natureza a amputar órgãos, temos a Natureza a trair o indivíduo, desta vez relativamente – e este é um ponto muito importante – à questão da normalidade. A maioria das pessoas não quer coisas fora do normal: quer aproximar-se da normalidade. A anormalidade existe apenas na sociedade cor-de rosa, que trata a cirurgia plástica duma forma que não existe, a não ser para aqueles que juntam o mercado e o negócio com a cirurgia plástica. A cirurgia plástica resolve problemas reais de pessoas reais. E nesse sentido, eu creio que é muito feliz esta forma de descrever a Natureza como uma força que pode retirar-nos o privilégio de sermos normais e a cirurgia plástica com este grande poder de o restaurar.

RPS: Se uma mulher – que tem um corpo normal, considerado bonito para a sua idade e de acordo com a zona do Mundo onde nasceu – quiser ter mais volume no peito, isso, na tua óptica, já não será uma busca pela normalidade…

MM: Vejo-o duma forma perfeitamente legítima. O que eu digo é que a grande maioria das pacientes quer aumentar a mama, porque se quer aproximar dum corpo que, ainda assim, não deixa de ser normal. Faz parte do dever dum cirurgião plástico, perceber até que ponto essa vontade da paciente é uma vontade legítima, no sentido de efectivamente haver possibilidade de melhorar dentro de um conceito estético apelativo e harmonioso; ou se é uma vontade exagerada e dismórfica. Nesse caso, o cirurgião plástico – não o comerciante de cirurgia plástica – tem o dever de recusar a cirurgia. E recusar, apesar de não ser muito habitual, é algo que acontece por achares que a vontade da paciente não está de acordo com a harmonia; não está de acordo com os teus princípios de beleza, porque, na verdade, trata-se do teu trabalho, dado que não estás a prestar um serviço em resposta ao que uma paciente quer, mas, em última análise, a melhorar o seu bem-estar e qualidade de vida.

RPS: O meu ‘eu’ fotógrafo percebe-te muito bem nessa questão. Qual é a tua grande missão, como profissional?

MM: Decididamente, tento fazer felizes as pessoas que me procuram. Seja através da cirurgia, seja porque recuso um tipo de tratamento e explico porque não é adequado fazê-lo. E aí, às vezes, a consulta sai um pouco do âmbito da cirurgia plástica. É inevitável nesta área não te envolveres ou empatizares com quem está à tua frente, porque se não o fizeres não estás a conhecer a pessoa, e se não conheceres a pessoa não consegues tratá-la da forma que ela espera e merece. Sinto e vejo que a auto-confiança, o amor próprio, a vida social, a vida íntima, das pessoas que entram no meu consultório, é mudada no bom sentido com aquilo que eu faço e isso é um privilégio enorme e será essa a minha grande missão. Implique, isso, uma cirurgia ou recusar uma cirurgia e explicar porquê. De alguma forma, tenho tido a sorte de conseguir trabalhar naquilo que gosto, duma forma dedicada, e só o consigo porque os pacientes me procuram e, portanto, eles são a razão do meu trabalho; mas consigo fazê-lo duma forma que me é querida e que é adequada à minha forma de ser. Eu opero uma ou duas pacientes por dia, dedico-me muito àquilo que faço e personalizo muito aquilo que faço.

RPS: Duas cirurgias por dia, é um número normal?

MM: Para mim é o número desejado.

RPS: Mas há quem faça mais?

MM: Há quem faça muito mais por dia. Eu não gosto de comentar essas opções porque acho que cada pessoa deve fazer as coisas da forma que se sente mais confortável. Pessoalmente, sinto-me muito confortável a operar dessa forma, porque sou muito meticuloso, sou muito tolerante no dia-a-dia, mas muito perfeccionista naquilo que faço. E gosto de ter tempo e disponibilidade mental para me permitir tentar atingir sempre essa perfeição.

RPS: É por essa razão que não abdicas de operar num hospital e não na tua clínica?

MM: Para construíres uma clínica com um bloco operatório, o investimento é enorme e o processo burocrático é excepcionalmente difícil. Só se justifica se, com isso, conseguires resolver tudo aquilo que precisas. Efectivamente o meu nível de cirurgia pressupõe muitas vezes cirurgias mais demoradas e em que é necessário teres mais tempo para atingires um determinado resultado; o tipo de resultado vai muitas vezes a detalhes que exigem prolongar o tempo operatório. Eu não sou lento a operar. Pelo contrário, acho que sou rápido. Faço é muita coisa, até as coisas ficarem perfeitas. E isso pressupõe um bloco com instalações físicas e com equipamento que seja compatível com realizar estas cirurgias, com o nível máximo de segurança possível.

RPS: Se algo correr mal, sabes que tens tudo no local para resolver o que for necessário…

MM: Exactamente. Mesmo a nível de recobro e de internamento, ter as valências que forem necessárias. No meu caso não é compatível com um bloco simples de ambulatório; teria que construir um hospital.

RPS: Já me falaste do teu ponto-de-vista mais artístico, em relação àquilo que fazes; e agora também de um ponto-de-vista mais médico. Isto leva-me para uma visão que eu tenho sobre aquilo que tu fazes: o cirurgião plástico tem que ter a mesma sensibilidade estética que um estilista e a mesma competência técnica que um engenheiro têxtil? Afinal de contas, a pele é um tecido e tem o seu nível de elasticidade, de densidade ou de resistência a factores externos ou ao envelhecimento…

MM: Acho que essa analogia com a industria têxtil é muito feliz em muitos aspectos. Infelizmente não consigo escolher o tecido, com que faço as minhas cirurgias. Nem tudo é Vitale Barberis Canonico. Mas é necessário teres uma competência técnica extraordinária. E aí é raro haver cirurgiões particularmente dotados, a trabalhar com as mãos. O que realmente os distingue, na maioria das vezes, é a quantidade e qualidade de cirurgias que ele faz durante a sua formação; a forma como se dedicam e como concentram os seus esforços naquilo que faz e na parte prática… Estas coisas dão prazer: a forma como tu escolhes e utilizas as ferramentas, o prazer que dá escolher e mexer no teu porta-agulhas, na pinça; a forma como vais buscar o fio,… Tudo isto é bonito e deve dar prazer. Se sentires isso, as coisas saem-te das mãos. Depois, há aqui algo que é um pouco diferente da industria têxtil: a anatomia é algo de absolutamente maravilhoso e a mesma cirurgia pode demorar mais ou menos tempo, ser mais ou menos elegante, haver mais ou menos perda de sangue; e tudo tem a ver com o conhecimento. E aí talvez entre uma sensibilidade que tu tens ou não tens, de seguir os planos naturais e anatómicos. Isso faz uma diferença enorme no resultado cirúrgico, no desenvolver da cirurgia. De facto, isto pode crescer com muita prática, mas nasce de alguma forma contigo. E mais do que seres extraordinariamente elegante a pegar num porta-agulhas ou teres uma mão super-firme – isso são mitos e é interessante falar deles -, o aspecto mais importante é teres uma sensibilidade anatómica para com os tecidos. E acho que isso nasce do prazer que tu tens em pegar e mexer nas coisas. Mas, de facto, não consegues fazer um excelente fato, se não fores extremamente meticuloso na forma como coses o tecido – seres um competente engenheiro têxtil – e ao mesmo tempo possuires uma sensibilidade estética muito apurada – ou seja, seres um verdadeiro alfaiate. Porque mesmo dentro dos alfaiates, há aqueles que fazem a diferença e têm um nome. Nem todos são merecedores do título Master Tailor of Saville Row

RPS: Habituamo-nos a ver, nos últimos anos ou mesmo décadas, um certo lifestyle associado ao cirurgião plástico, quer pelo poder económico, mas também no que diz respeito ao lifestyle. Cabes nesta realidade ou és um outsider nesta realidade quase instituída de festas e revistas cor-de rosa?

MM: Socialmente, como te disse, não sou uma pessoa particularmente apta ou que goste sequer de se mover dessa forma e nesses círculos sociais. Não me é natural. Mas sou uma pessoa que gosta de coisas bonitas e de coisas com qualidade. A questão é que as coisas bonitas e com qualidade nem sempre são caras. Muitos cirurgiões plásticos têm barcos. Eu também tenho um, mas o meu é um barco à vela, da década de 70, que eu restaurei integralmente com as minhas próprias mãos – envernizei-o, fiz os painéis de madeira, fui comprar peças usadas de latão de barcos antigos,… – portanto, construí-o à minha medida. E consegui isso com o dinheiro que recebi quando dava aulas na Faculdade de Medicina. Portanto, nem foi a Cirurgia Plástica que me pagou esses privilégios. Há carros que são estupidamente caros e são estupidamente feios. Há carros que são bem mais baratos, mas são carros fabulosos, com linhas intemporais. Os privilégios que eu tenho, estão ao alcance da maioria.

RPS: Aprendeste com os melhores?

MM: Tive a sorte de aprender com os melhores, mas também procurei e fui à procura daqueles que considero os melhores. De facto, o contacto com certas pessoas faz com que tu mudes alguns paradigmas da tua vida ou que, de certa forma, consigas corroborar aquilo que para ti já são os teus princípios. Ao encontrares, naquela pessoa que admiras, características afins e partilhadas, sentes que elas se tornam mais legítimas e vincadas.

RPS: Tiveste algum contacto particular com o Ivo Pitanguy?

MM: Sim. Estive a trabalhar, em estágio, no grupo do Prof. Pitanguy; e tive o privilégio de o conhecer pessoalmente, uns anos antes dele falecer. E é curioso que, quando o conheci, já ele tinha 80 e tal anos e era uma pessoa que me permitiu experimentar um sentimento que só tive duas vezes na vida: o facto de estares no mesmo espaço físico onde está alguém que tu tens a noção que é realmente especial e dotado. Alguém ímpar e verdadeiramente genial. Tive essa experiência, noutro contexto, em Peniche, quando vi o Kelly Slater a surfar. Há muitos surfistas excepcionais, mas quando ele entrou na praia, senti que havia uma aura de algo muito especial. E senti isso quando o Prof. Pitanguy entrou na sala de bloco onde eu estava. Tinha caraterísticas pessoais e profissionais que faziam dele uma pessoa inspiradora para qualquer um. Redescobri-o mais tarde, através de livros que ele escreveu, já depois de eu ter saído do Rio de Janeiro. Havia nele um lado humano que deve ser conhecido por toda a gente – e depois, profissionalmente, era uma pessoa que tinha esse componente humano muito forte, princípios estéticos que saíam da sala de cirurgia e que habitavam na forma como ele vivia o seu dia-a-dia e na elegância com que tratava as pessoas. Havia nele algo de verdadeiramente especial.

RPS: Falaste há pouco no acto de coser, de puxar um tecido,… Tens alguma ligação especial com os instrumentos que usas ou são simplesmente ferramentas descartáveis indispensáveis à tua função?

MM: É inevitável estabelecermos uma ligação e isso vem do prazer que as coisas te dão. Há pouco falei do porta-agulhas, que é um instrumento. Tu não tens um porta-agulhas: na mesma cirurgia tens dois ou três porta-agulhas e vais usando. E não é pouco habitual – e a minha instrumentista já sabe – que quando eu estou com um porta-agulhas e eu gosto dele e ela me dá outro, eu peço-lhe especificamente o anterior. Ambos pegam na agulha do fio e ambos conseguem dar o nó, mas um dá-te um prazer na forma como é manuseado, que o torna diferente. Portanto, estes pequenos detalhes fazem com que tu te ligues a alguns instrumentos.

RPS: Já te negaste a fazer vontades a pacientes?

MM: Muitas vezes. Menos agora, porque no início da minha actividade aparecia todo o tipo de pacientes. Aqueles que eventualmente encaixam mais na ideia de mercado, que falaste há pouco. E recusei-me muitas vezes porque não concordava com o objetivo estético e final da cirurgia. A maioria dos meus pacientes não são clientes, são pacientes. Hoje em dia só tenho pacientes. E ao dizer que não a algumas clientes, estabeleci de alguma forma a minha linha estética e de trabalho e hoje em dia 90% das pacientes que me procuram, chegam pelo passa-palavra e portanto já sabem que eu gosto de atingir determinado tipo de resultados e confiam nisso. E são pacientes também porque às vezes têm que esperar, devido à quantidade de pessoas que me procuram – o que faz deles duplamente pacientes. É um privilégio não desistirem. É um privilégio ter pessoas que aguardam pela primeira consulta e pela cirurgia. E eu conheço-as pelo nome, sei como é a vida delas. É outra das vantagens de ter menos pacientes e só fazer duas cirurgias por dia. Sou um afortunado.

RPS: Não é muito difícil perceber que não és especialmente dado à popularidade. És mais focado em ser reconhecido do que em ser conhecido?

MM: Tenho esta característica particular de eu próprio ter de me reconhecer no trabalho que faço. É uma questão pessoal e mesmo egoísta. E aviso os pacientes na consulta, acerca disso. O meu objectivo principal na consulta é que ambos possamos entender qual é o objectivo final do trabalho. Talvez por ter outras vivências para além da cirurgia, por ter prioridades familiares,… Eu quero ser reconhecido pelo meu filho, pela minha companheira, por aqueles que são essenciais para mim. A popularidade em si, não me diz nada. Tenho vontades públicas, no entanto. Tenho vontade de melhorar a forma como a Cirurgia Plástica é vista e é percepcionada pela opinião pública. Isso tenho. Mas não pretendo ser reconhecido pessoalmente por isso. Tenho essa vontade porque gosto muito desta área e porque vejo o seu potencial. Vejo o envolvimento humano ímpar e vejo que a forma como as pessoas mudam graças à Cirurgia Plástica é tão gratificante e tão real, que é uma área demasiado séria, para ser entendida e tratada como um capricho ou uma forma de entretenimento pela Comunicação Social ou pela opinião pública. É isso que alimenta os preconceitos e perpetua a ignorância. Se eu puder contribuir para alterar isso, ficarei muito satisfeito.

RPS: Como defines a beleza, numa mulher?

MM: É algo extremamente variado e variável. Tu consegues atribuir medidas; há muita gente que fez muitos esforços para juntar a matemática com a estética e falar em proporções ideais e em ideais de beleza, mas a verdade é que eu vejo muitas vezes aqui no consultório pacientes que fogem, de todo, de determinados ideais que estão descritos e publicados – e com os quais eu concordoem certa medida. Mas aquele traço que é completamente fora desses padrões, naquele conjunto, resulta e transmite mesmo uma beleza enorme. E há diferença entre beleza e paixão: na paixão tu queres ter e usufruir daquilo que vês; e na beleza não precisas de possuir o que é belo para afirmares que o é. Vê-lo, somente, já é altamente gratificante. Nesse caso, a beleza já não é tão subjectiva: qualquer pessoa consegue perceber que é bonito, mesmo que não saiba explicar porquê.

RPS: Uma personalidade forte pode ser o concorrente natural dos cirurgiões plásticos?

MM: Acima de tudo, nós estamos aqui para tornar mais felizes a vida das pessoas. E no caso do cirurgião plástico, ajustando traços físicos. Se alguém é absolutamente feliz com o corpo que tem, a função do cirurgião plástico, nesse caso, é ficar satisfeito com isso. Com ou sem cirurgia, estarmos felizes com nós próprios, será sempre o objectivo final.

RPS: Pode dizer-se que há uma ‘escola’ portuguesa de Cirurgia Plástica?

MM: Infelizmente, não na sua vertente mais estética. Acho que tem a capacidade para a ter, mas não tem porque os cirurgiões plásticos, de alguma forma, trabalham muito isoladamente; a própria vertente mais estética não é bem vista por quem se dedica mais à parte reconstrutiva, apesar de ser um cinismo absoluto – e prefiro chamar-lhe cinismo, do que falta de cultura ou de conhecimento da sua realidade ou aplicabilidade. Mas duma forma ou de outra, não há a devida valorização. Existe um impedimento forte, devido ao nível de competitividade que já vem das escolas de medicina, e que não se adequa muito ao conceito de escola. Para existir uma escola, as pessoas têm de se reunir, têm de discutir e partilhar o que sabem e fazem. Só assim crescem em conhecimento e experiência, de forma a mostrarem fora o que aqui se faz e serem valorizadas por isso. E como isto não existe, as pessoas acabam por trabalhar muito sozinhas e apostam muito no marketing e na lógica de mercado, apostando muito em formas muitas vezes pouco nobres, em vez de partilharem conhecimentos e se afirmarem internacionalmente, como um centro de referência neste campo, porque temos esse potencial. É inegável e vemos isso quando vamos a qualquer congresso internacional. Os resultados que obtemos são frequentemente superiores, porque temos igual tecnologia, temos frequentemente melhor técnica e temos acesso a determinado tipo de implantes que conferem resultados francamente superiores aos que vemos ser apresentados lá fora, por exemplo nos EUA. Mas porque somos portugueses, na sua pior vertente, isolamo-nos e isso não permite ac criação de uma ‘escola’ estética portuguesa de cirurgia plástica.

RPS: Há algo que tu faças que seja uma inovação e que estivesses aberto a partilhar com colegas de profissão ou estagiários?

MM: O meu mais recente projecto é precisamente a criação da Academia de Cirurgia Plástica Mário Mendanha. Creio que espelha a minha intenção, que é transformar o espaço onde eu trabalho, numa academia, no sentido real do termo, em que há um pendor de partilha de conhecimentos. Ficaria muito feliz se fosse um espaço que pudesse atrair internos de especialidade que queiram ver determinado tipo de cirurgias que não são praticadas no Sistema Nacional de Saúde. Poder permitir-lhes o acesso a essas técnicas numa fase mais precoce da sua formação, porque acho que se nós criarmos os melhores cirurgiões plásticos, isso vai dignificar a cirurgia plástica a nível nacional; e todos teremos a ganhar com isso: os pacientes, os médicos, o país.

RPS: Dado que fiz o trabalho de casa, posso adivinhar que foi a tua humildade que ainda não te permitiu elencar algumas inovações que sei que pões em prática, como por exemplo ao nível da minimização de dor, encurtamento dos tempos de pós-operatório, etc…

MM: Não me sinto à vontade para dizer que são inovações minhas, porque não são. A única coisa que faço é replicar coisas que vi fazer e estudei. Qualquer cirurgião faz as coisas à sua maneira e eu faço algumas que são particulares. Tenho o mau hábito e o grande defeito de ter muito pouca paciência para publicar artigos científicos e isso é talvez a minha grande lacuna a nível profissional; mas tenho uma linha e uma conduta de trabalho muito vocacionada para dois aspectos: o melhor resultado cirúrgico possível – daí obrigar-me a operar muito poucos pacientes por dia – e, ao mesmo tempo, bater-me durante a cirurgia, para que o pós-operatório seja o menos doloroso possível, atendendo a que há cirurgias em que efectivamente eu faço muita coisa, e portanto o desconforto pós-operatório pode ser grande. Há outras em que não é necessário o paciente passar pelo desconforto clássico atribuído a esse tipo de cirurgia. A abdominoplastia com drenos em que a paciente fica internada 3 ou 4 dias num hospital, a meu ver não faz grande sentido. Já há uns anos que faço abdominoplastia sem drenos – obviamente que não demoro 45 minutos a fazê-la: demoro 2 horas – mas a paciente tem alta no mesmo dia e sem drenos. Isto permite-lhe regressar à vida normal mais rapidamente, com uma mobilização precoce e com uma diminuição da taxa de complicações e tudo isto é muito importante para quem procura uma cirurgia que é opcional, pois não é uma cirurgia que alguém tenha que fazer. O paciente vai submeter-se a um procedimento cirúrgico sob anestesia geral, com um período de recuperação mais ou menos rápido, mas existe sempre um período de recuperação. Portanto, queres que o pós-operatório seja o mais indolor possível e queres regressar o mais rápido possível às tuas actividades diárias. E queres, acima de tudo, que seja feita com o maior nível de segurança possível – que é o ponto fundamental. Ou seja, não é tanto uma questão de inovar, mas de escolher as melhores ferramentas que estão ao nosso dispor para conseguirmos dar isto aos pacientes. Isto exige que às vezes tenhas de dar 20 ou 30 pontos num local onde poderias simplesmente colocar um dreno e operar a próxima paciente, mas isso é uma linha de trabalho que me é particular.

RPS: Portanto, és adepto daquela velha máxima que diz ‘Depressa e bem, há pouco quem’…

MM: Acho que sim. Mas como te disse, não me considero lento. Fui muito bem treinado para suturar rápido ou fazer descolamento de tecidos rapidamente. Simplesmente, faço muitas coisas num mesmo procedimento. Numa abdominoplastia, por exemplo, gosto de aspirar, de aspirar a um nível de definição compatível com o corpo que estou a tratar. Portanto, é uma questão de detalhe e eu sou obcecado pelos detalhes.

 


Fotografias e Entrevista: Ricardo Pereira da Silva [RAWPHØTOLOGY]

MÁRIO MENDANHA | CIRURGIA PLÁSTICA

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